segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Rio Grande

Desde os meus treze anos, quando passei a ter acesso à internet, sofria com a pergunta: “onde moras?”
A maioria dos chats que eu participava eram do Rio Grande do Sul, e quando eu respondia que morava em “Rio Grande”, as pessoas complementavam: “isso eu sei, mas em qual cidade?”
Ainda hoje, que a cidade de Rio Grande adquiriu uma visibilidade maior no estado e no país, muitas pessoas ainda não sabem da existência de uma cidade chamada Rio Grande no Rio Grande do Sul.
Rio Grande tem este nome pelo mesmo motivo que o nosso estado tem o nome de Rio Grande do Sul: a Laguna dos Patos. Os colonizdores acreditavam se tratar de um grande rio que desaguava no Atlântico Sul; a cidade de Rio Grande fica quase no meio das águas: é uma península. A partir do trevo de acesso ao centro da cidade, ao Super Porto e à praia do Cassino, nosso pedaço de terra se liga ao continente apenas por uma direção, e enquanto adentramos a Av. Itália, vemos do lado esquerdo a Laguna dos Patos e do lado direito o Saco da Mangueira.
Na ponta onde se localiza a cidade antiga, a zona central de rio grande, nos vemos cercados pela Laguna e o canal do Rio Grande, que liga a Laguna ao Oceano Atlântico e, nas laterais deste canal, encontramos a terceira maior obra de engenharia oceânica do mundo: os Molhes da Barra, que foram produzidos para estabilizar a entrada na Laguna dos Patos para o funcionamento do Porto de Rio Grande. Esta construção foi necessária porque os ventos e sedimentos carregados pelas correntes marítimas alteram naturalmente a desembocadura da Laguna.
Rio Grande é plana e arenosa. Como a Laguna dos Patos, a cidade só pode ser formada por causa dos movimentos das marés ao longo de milhares de anos, enquanto o mar invadia o estado e depositava sedimentos, e depois regredia revelando novas formas geradas pela deposição.
Mas o município se estende a norte, já em pleno continente, onde se localizam as áreas rurais, distantes de 30 a 100km do centro da cidade, até, a leste, parte da Reserva Ecológica do Taim e ao norte, até a ponte que passa por cima do canal São Gonçalo, limite natural entre Rio Grande e a cidade de Pelotas. Ao longo do percurso até Pelotas, pela BR 392, atualmente em processo de duplicação, passamos pelos distritos da Quinta e Povo Novo. O primeiro está em processo de expansão, pois a cidade recebe cada vez mais pessoas com o advento do Pólo Naval, e já não há tanto espaço nas regiões mais centrais para acomodar os novos moradores.
Ainda na zona rural, temos as ilhas do Leonídio, Marinheiros e Torotama, destacadas pela agricultura e pesca artesanal. No sentido leste-sul, no caminho para o Chuí e o Uruguai, temos localidades como a Palma e os residentes na Capilha, já considerada região do Taim. A praia de água doce dessa localidade é banhada pela Lagoa Mirim, e é um excelente lugar para descanso por não possuir tanto vento como na praia do Cassino e ser ainda um local tranqüilo que apreciamos a natureza.
Na costa do continente, temos a praia do Cassino, considerada pelo Guiness Book como a maior praia em extensão do mundo, título que gera controvérsias entre os habitantes do município de Santa Vitória do Palmar, ao sul, que apreciam a praia do Hermenegildo, que pelo recorde registrado, faria parte do Cassino.
O balneário Cassino é a segunda opção de moradia das classes mais abonadas da cidade, mas mesmo assim ainda sofre bastante com a falta de infra-estrutura em suas ruas. É o local mais apreciado no verão da cidade, não só pela praia, que permite aos banhistas chegarem até a beira do mar de carro, mas também pela Av. Rio Grande, que possui canteiro e ciclovia onde a população se reúne nas noites de verão e nas tardes de inverno para tomar chimarrão e conversar.
A cidade de Rio Grande possui uma recordação histórica muito significativa, pois já foi capital do estado e palco de muitas transformações regionais. O Porto sempre foi muito valorizado pela posição estratégica da cidade e pela possibilidade de circulação da economia pelo Rio Grande do Sul, sendo um excelente ponto de visitação para o turismo histórico, através de uma boa orientação sobre os aspectos históricos de prédios e monumentos. Possui também o maior complexos de museus da região sul do estado e a maior praça arborizada fora da Grande Porto Alegre, a Praça Tamandaré, que resguarda em um monumento-túmulo os restos mortais de Bento Gonçalves, figura significativa na Revolução Farroupilha.
A população rio-grandina, não se difere de outras quanto suas disparidades: poucos com muito e muitos com pouco. Com quase duzentos mil habitantes, a população vive o imediato, e naturalmente não reserva tempo para apreciar os aspectos interessantes da cidade, como o rico arsenal histórico e as paisagens que compõem Rio Grande. O povo é gaúcho, mesmo não fazendo parte da região dos Pampas. É maravilhoso visitar localidades rurais e admirar a rotina campeira, tranqüila e saudável que nos inspira a enxergar o mundo, a natureza com um olhar mais acalentador.
Enfim, Rio Grande é uma cidade com problemas estruturais como muitas outras, mas com uma riqueza paisagística única, que exige treinamento do olhar para encontrar graça de viver aqui.
Por que treinamento? Porque é nocivo enxergar a cidade do cotidiano, das manobras políticas (como também em todo o Brasil), dos problemas de mobilidade urbana, etc. O treinamento significa aprender a ressiginificar a vivência para manter um olhar sóbrio e tranqüilo para o lugar onde vivemos, que não é somente economia e política, mas natureza e paisagem e mesmo esta última sendo resultado também da ação humana sobre a primeira, cada transformação possui seu valor e deve ser valorizado pelo homem para este ter prazer em viver e contribuir, de uma maneira ou de outra, ao lugar em que habita.