domingo, 30 de julho de 2017

Aulinha de Geo para o 5º ano


Comparar ou igualar o país Estados Unidos da América e o continente América nunca será justificável, sob nenhum ponto de vista.
Geograficamente, "europeu", "asiático", "africano", são sempre definições de populações dos continentes em questão. Dessa forma, "americano", ou "norte-americano" são expressões que devem ser usadas com a mesma perspectiva. 
Na verdade, na origem do nome do país em questão já existe um equívoco generalizante, já que os estados que se uniram dizem respeito às treze colônias inglesas que se rebelaram contra a capital, no século XVIII. Dessa forma, esse episódio não se refere a nem uma quarta parte do território do que equivale o continente Americano. Ou seja, a própria nomenclatura é equivocada.
Em outro momento histórico, o termo "americano" passa a ser usado com o intuito de uma pretensa união do continente, mas a partir de um interesse puramente estadunindense de demonstrar sua força diante do continente Europeu, e de que eram capazes de caminhar com as próprias pernas e de controlar sua economia e política. No início do século XIX o presidente James Monroe apresenta um tratado de independência de todo o continente Americano diante do continente Europeu, fazendo de sua voz a voz de dezenas de nações independentes ou em processo de independência, ou seja, falando pelos demais países, e liberando o espaço para o expansionismo estadunindense em um território vulnerável, reivindicando terras "por direito" se usando do discurso "América para os Americanos".
O que sabemos é que esse isolamento do continente Americano promovido pelo pretenso "protecionismo" estadunindense promoveu uma ampla intervenção dos Estados Unidos, país mais desenvolvido economicamente até então na América, nas demais nações propensas à independência, agora livres da intervenção europeia, na verdade, sem mais ninguém a recorrer senão aos Estados Unidos.
Também não adianta achar que a desgraça latino-americana se deu por conta da incompetência dos países pertencentes a esse sub-continente. Estados Unidos e Canadá tiveram um processo de colonização diferente, devido às características físicas da parte mais setentrional do continente, e pela própria situação dos países metrópoles, Inglaterra e França, que estavam superpovoados, e a necessidade era de realocar a população em áreas prósperas. Já Espanha e Portugal, historicamente endividados, estavam sempre em busca de mais recursos financeiros para suprir as necessidades de suas Coroas. Em um resumo mais infantil do que as séries iniciais do Ensino Fundamental, assim surge a enorme distinção econômica e social entre os países de origem anglo-saxã e os de origem latina na América.
Com uns 200 anos ou mais de exploração intensa econômica, social, cultural e política, a fragilidade dos países latino-americanos dificilmente deixava alternativas para o desenvolvimento autônomo destas nações. Ou se apelava para a revolução, encabeçada, muitas vezes por jovens de origem nobre e europeia, ou se sucumbia ao poder político e econômico dos EUA. "América para os americanos", entendi.
O Paraguai foi um dos países latino-americanos que mais foram longe na tentativa de crescer independente, e foi massacrado por isolacionismo, e por uma guerra. Cuba prosperou em alguns aspectos, mas o embargo econômico também sacrificou muito o crescimento cubano no cenário mundial. Vemos embargos mais recentemente na Venezuela, quando um governo tenta impor os interesses nacionais sobre os interesses "americanos" (os "americanos" que a Doutrina Monroe elenca como merecedores, enquanto outros americanos são os "recursos"), as limitações econômicas no cenário mundial, hegemonicamente sob o domínio do capital estadunindense, fazem a sociedade sucumbir sobre limitações de importações e exportações.
Ah, sobre o Capitão América... simplesmente mais uma forma equivocada de generalizar os interesses de países diversos sob a bandeira da exploração estadunindense. E usar o nome de um continente multi-cultural para a homogeinização de um interesse político e cultural. 

Tudo o que eu disse aqui, é meramente conhecimento geral sobre História e Geografia, nada de muito complexo, é apenas a cargo de informação. Só um pouquinho de informação CONTEXTUALIZADA nos permite analisar que é um grande equívoco, e vergonhoso, generalizar qualquer aspecto de origem estadunindense como "americano".

É um pouco diferente quando distinguimos o continente Americano sob a perspectiva cultural e de origem linguistica, pois dividir este em America Anglo-saxônica e América Latina, remete a aspectos em comum entre os países de cada sub-continente, que na maioria das vezes os distinguem dos países do outro: língua, colonização, aspectos culturais e geográficos, etc. Trata-se mais de uma comunhão do que de uma divisão.

Enfim... Estados Unidos da América é um país, comumente chamado de "Estados Unidos", cujos cidadãos nacionais são estadunindenses. América é uma porção continental de terra, sub-dividida de acordo com aspectos geográficos em América do Norte, América Central e América do Sul, ou de acordo com caracteristicas socio-históricas entre América Anglo-saxônica e América Latina. Todos os cidadãos desse continente devem ser entendidos como Americanos, como todos os cidadãos do continente Europeu são conhecidos por "Europeus", e etc. Isolar ou generalizar esta expressão é um equívoco situado social, política e historicamente. É um equívoco intencional. Não reproduza ele somente a partir do senso comum. Estamos acostumados ao país hegemônico política e economicamente nos dizer quem são e quem somos. Cabe a nós assumir isso como verdade ou buscarmos nossa identidade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luto por 2016

Talvez, se eu escrever, alguma coisa passe.

Eu estou faz dias para escrever no blog esquecido. Ia falar sobre 2016. Foi horrivel, mas teve algumas coisas boas.
Mas o que aconteceu na virada do dia 31/12 para 01/01/2017 resume como foi 2016.

Ódio.
Um homem matou grande parte da familia da ex-mulher e seu próprio filho. Poderia ser apenas uma tragédia familiar, podíamos "justificar" o acontecido por um transtorno psiquico do assassino. Mas o que acontece é pior. O homem apresentou sua motivação em cartas anteriores, que, individualmente, seria rancor por ter perdido a guarda do filho para a ex-mulher. Em si, já é irracional, mas enfim, sei lá, poderia ser reflexo de uma fragilidade psicológica, que deveria ter sido diagnosticada e tratada.

Mas o problema é que ele justifica suas ações baseado em um ódio generalista sobre as mulheres (mesmo que em algumas palavras ele tente se defender da alcunha de machista). A ex-mulher era uma vadia, todas as que tinham o mesmo sangue que ela eram vadias, a ex-presidente é vadia, todas as mulheres que buscam amparo judicial são vadias. A senhora que apanhou boa parte da vida do marido e deu o nome à lei de proteção às mulheres também é uma vadia.

Ele coloca a culpa de seu descontrole emocional na Justiça, nas mulheres, na esquerda. E é nisso que nossa sociedade, nosso 2016 e, infelizmente, nosso futuro está calcado: em colocar a culpa no outro, em passar a responsabilidade de suas ações ou falta delas a qualquer outra pessoa, entidade, ou até ideologia.

Já antes, nesse 2016, um pai havia assassinado um filho por não ter as mesmas concepções políticas que este. E a culpa era da esquerda, das escolas, dos professores. 

Assassinato nunca é justificável. Até mesmo quando matamos um algoz cruel e desumano, estamos agindo de forma impulsiva, estamos "fora de si", estamos agindo levianamente. E não falo aqui de merecimento, quem merece ou não morrer, ou ser estuprado, ou ser assaltado. Só que qualquer um de nós que atente contra a vida, está sofrendo um sério disturbio, que pode ser emocional, psiquiátrico, social, etc. Estamos fora da nossa consciência de sociedade humana, e isso deve ser considerado assim. EU DECIDI SER ASSIM. Posso ter sofrido as maiores injustiças do mundo, posso morrer injustiçado, mas se eu resolver matar por essa injustiça, A ESCOLHA FOI MINHA, ninguém me obrigou a isso.

Outro lado disso tudo é a intolerância ao outro, também muito presente, e cada vez mais, nesse nosso 2016. Quem pensa diferente de mim é inimigo e deve ser eliminado ou, ao menos, não faz diferença se for eliminado. Se eu sou brasileira e a desgraça aconteceu em Uganda, danem-se: não foi com os meus cupinxas, ou eu não ganharei nenhum status em me solidarizar com isso. Mas isso sempre foi muito comum, como choramos em 2001 com os atentados nos EUA e as mortes no Oriente Médio são só uma notinha no jornal. Mas, em 2016 isso está cada vez mais escancarado, e as pessoas não tem mais a mínima vergonha em assumir que não possuem empatia ou alteridade.

Quem sabe isso seja bom, porque torna mais escancarado quem é quem. Mas decepciona bastante. Assusta bastante. Porque antes se escondia que se bate em mulher pelo simples fato de ser mulher, se achaca pobre pelo simples fato de ser pobre, se discrimina negro pelo simples fato de ser negro, e agora, as pessoas fazem isso em público e parte da platéia aplaude.

Parte da platéia aplaude.

Aplaude o assassino de doze pessoas, injustiçado pela Justiça e pelo feminismo.
Aplaude o pai desequilibrado que mata o filho, porque não sabe viver com as diferenças. Opa, não, a culpa é da doutrinação marxista.
Aplaudem o ódio, e jogam a responsabilidade pra vítima. Mulheres sabem bem o que é isso, mas não quero escrever um texto feminista porque né, posso ser agredida por isso e a culpa ainda vai ser minha.

A estratégia de desvelar as mazelas sociais está virando contra si: ao invés de recriminarmos a violência, o ódio, estamos justificando. Justificando e dizendo quem pode ser violento e quem não pode. Estamos julgando violência com violência. Ao invés das pessoas sentirem vergonha por espancar mulher, mendigo, transsexual, elas se sentem livres pra apoiar em cima de uma suposta índole boa do agressor.

Então, 2016, no público e no privado, se resumiu a isso:
Ódio;
Falta de responsabilidade;
Falta de respeito;
Intolerância.

Não foi legal, não. Eu posso ter tido conquistas, eu posso ter vencido minhas próprias batalhas, posso ter perdido algumas, mas a sociedade em que vivo está doente, e não posso me omitir diante disso. Sei que não posso perder o sono por isso, sei que devo amar, sei que devo esquecer, viver, buscar minhas responsabilidades, mas faço parte desse mundo e preciso viver o luto disso tudo que estamos passando enquanto coletivo.