segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luto por 2016

Talvez, se eu escrever, alguma coisa passe.

Eu estou faz dias para escrever no blog esquecido. Ia falar sobre 2016. Foi horrivel, mas teve algumas coisas boas.
Mas o que aconteceu na virada do dia 31/12 para 01/01/2017 resume como foi 2016.

Ódio.
Um homem matou grande parte da familia da ex-mulher e seu próprio filho. Poderia ser apenas uma tragédia familiar, podíamos "justificar" o acontecido por um transtorno psiquico do assassino. Mas o que acontece é pior. O homem apresentou sua motivação em cartas anteriores, que, individualmente, seria rancor por ter perdido a guarda do filho para a ex-mulher. Em si, já é irracional, mas enfim, sei lá, poderia ser reflexo de uma fragilidade psicológica, que deveria ter sido diagnosticada e tratada.

Mas o problema é que ele justifica suas ações baseado em um ódio generalista sobre as mulheres (mesmo que em algumas palavras ele tente se defender da alcunha de machista). A ex-mulher era uma vadia, todas as que tinham o mesmo sangue que ela eram vadias, a ex-presidente é vadia, todas as mulheres que buscam amparo judicial são vadias. A senhora que apanhou boa parte da vida do marido e deu o nome à lei de proteção às mulheres também é uma vadia.

Ele coloca a culpa de seu descontrole emocional na Justiça, nas mulheres, na esquerda. E é nisso que nossa sociedade, nosso 2016 e, infelizmente, nosso futuro está calcado: em colocar a culpa no outro, em passar a responsabilidade de suas ações ou falta delas a qualquer outra pessoa, entidade, ou até ideologia.

Já antes, nesse 2016, um pai havia assassinado um filho por não ter as mesmas concepções políticas que este. E a culpa era da esquerda, das escolas, dos professores. 

Assassinato nunca é justificável. Até mesmo quando matamos um algoz cruel e desumano, estamos agindo de forma impulsiva, estamos "fora de si", estamos agindo levianamente. E não falo aqui de merecimento, quem merece ou não morrer, ou ser estuprado, ou ser assaltado. Só que qualquer um de nós que atente contra a vida, está sofrendo um sério disturbio, que pode ser emocional, psiquiátrico, social, etc. Estamos fora da nossa consciência de sociedade humana, e isso deve ser considerado assim. EU DECIDI SER ASSIM. Posso ter sofrido as maiores injustiças do mundo, posso morrer injustiçado, mas se eu resolver matar por essa injustiça, A ESCOLHA FOI MINHA, ninguém me obrigou a isso.

Outro lado disso tudo é a intolerância ao outro, também muito presente, e cada vez mais, nesse nosso 2016. Quem pensa diferente de mim é inimigo e deve ser eliminado ou, ao menos, não faz diferença se for eliminado. Se eu sou brasileira e a desgraça aconteceu em Uganda, danem-se: não foi com os meus cupinxas, ou eu não ganharei nenhum status em me solidarizar com isso. Mas isso sempre foi muito comum, como choramos em 2001 com os atentados nos EUA e as mortes no Oriente Médio são só uma notinha no jornal. Mas, em 2016 isso está cada vez mais escancarado, e as pessoas não tem mais a mínima vergonha em assumir que não possuem empatia ou alteridade.

Quem sabe isso seja bom, porque torna mais escancarado quem é quem. Mas decepciona bastante. Assusta bastante. Porque antes se escondia que se bate em mulher pelo simples fato de ser mulher, se achaca pobre pelo simples fato de ser pobre, se discrimina negro pelo simples fato de ser negro, e agora, as pessoas fazem isso em público e parte da platéia aplaude.

Parte da platéia aplaude.

Aplaude o assassino de doze pessoas, injustiçado pela Justiça e pelo feminismo.
Aplaude o pai desequilibrado que mata o filho, porque não sabe viver com as diferenças. Opa, não, a culpa é da doutrinação marxista.
Aplaudem o ódio, e jogam a responsabilidade pra vítima. Mulheres sabem bem o que é isso, mas não quero escrever um texto feminista porque né, posso ser agredida por isso e a culpa ainda vai ser minha.

A estratégia de desvelar as mazelas sociais está virando contra si: ao invés de recriminarmos a violência, o ódio, estamos justificando. Justificando e dizendo quem pode ser violento e quem não pode. Estamos julgando violência com violência. Ao invés das pessoas sentirem vergonha por espancar mulher, mendigo, transsexual, elas se sentem livres pra apoiar em cima de uma suposta índole boa do agressor.

Então, 2016, no público e no privado, se resumiu a isso:
Ódio;
Falta de responsabilidade;
Falta de respeito;
Intolerância.

Não foi legal, não. Eu posso ter tido conquistas, eu posso ter vencido minhas próprias batalhas, posso ter perdido algumas, mas a sociedade em que vivo está doente, e não posso me omitir diante disso. Sei que não posso perder o sono por isso, sei que devo amar, sei que devo esquecer, viver, buscar minhas responsabilidades, mas faço parte desse mundo e preciso viver o luto disso tudo que estamos passando enquanto coletivo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Ai, minha coluna!

Esses dias eu estava assistindo o filme "Marley&Eu", e prestei atenção no dilema profissional do John, tutor do Marley. Ele era jornalista de formação que se viu por necessidade escrevendo colunas, e se descobriu.
Eu sempre remeto a palavra "coluna" a aquela estrutura enorme que nos sustenta. Mas pelo que tenho percebido, a diferença entre uma coluna - modalidade de texto - e um artigo, é o caráter menos formal do primeiro. Já intitulei meu blog em outro momento de "Crônicas de uma mente moldada e partida", numa época em que escrevia textos mais pessoais e filosóficos.
Ultimamente, as coisas que me instigam a escrever são temas específicos, raros os que consigo parar na frente do computador e escrever algo, que eu considere emitir a minha opinião e informar ao mesmo tempo. E isso, creio, é o que caracteriza uma coluna.
E o trocadilho com a estrutura que nos mantém de pé, e todo mundo já sentiu algum desconforto, seja vindo dela, seja refletindo nela.
Taí.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Economia doméstica??

Eu não entendo muito de Economia, mas aprendi que é importante evitar generalizações e simplificações exageradas. As coisas do mundo e o mundo são muito complexos pra analisar tudo sobre o método indutivo. 

Para justificar a governabilidade do atual governador do Rio Grande do Sul, vejo economistas na mídia relacionarem a gestão das finanças de um estado da federação como gerimos as finanças da nossa casa: ora, se não temos dinheiro entrando, não podemos gastar. Mesmo que aceitássemos essa comparação simplória, poderíamos fazer uma analogia que demonstra a falta de humanidade e consciência social do nosso governo gaúcho. Vejamos:

Eu vivo controlando as minhas contas. Procuro gastar o que tenho, dificilmente consigo juntar poupança. E aí, minha mãe descobre um câncer. O que eu vou fazer? Não tenho dinheiro, ele está contadinho todos os meses. Vou deixar minha mãe definhando até a morte? Não, eu vou buscar recurso de onde eu puder e não puder para tentar manter a saúde dela, a vida dela. Vou me endividar em agências de crédito, vou deixar de comprar a roupa top do fim de semana, mas vou fazer de tudo para conseguir recursos para manter a saúde da minha mãe. Vou pagar médicos capacitados pra isso, meu dinheiro também precisa cobrir a capacitação desses profissionais que vão tentar salvar a vida da minha mãe.

E o que o governador faz com a saúde pública? Ao invés de mexer a bunda da cadeira e buscar recursos, não, simplesmente não repassa estes e coloca a culpa no funcionário que precisa ser pago. E ele precisa ser pago por que se aperfeiçoou bons anos da vida para prestar serviço aos cidadãos.

A preocupação capitalista é sempre com o dinheiro, nunca com o cidadão. Eu vou ficar devendo pra banco? DANE-SE, as pessoas estão morrendo em salas de espera de hospitais, a prioridade deve ser as pessoas, os cidadãos que elegem seus governantes para gerir a manutenção dos serviços públicos.

Mas... vou sair dessa comparação simplista que, ainda assim, desbanca o argumento dos economistas/jornalistas pra justificar a forma de governar do governador Sartori.

Não creio que gerir a economia de um estado ou país seja como gerir as contas da casa. Eu tenho um salário, eu procuro gastar o que tenho para pagar minhas contas [nossa, como é difícil fugir das generalizações que nos afogam, eu já ia escrever mais uma comparação simplista; entrementes, é cansativo, doloroso, pensar além, mas é o que devemos fazer para sermos conscientes e nos desenvolvermos como indivíduos e cidadãos]. As relações de poder que permeiam a manutenção da economia de um estado, vão muito além do meu problema com a fornecedora de energia elétrica que cortou minha luz. O poder econômico o qual nossa sociedade está colocada se utiliza das armadilhas mais imorais, porém legais, para controlar o que podemos ou não fazer ou ter acesso.

Manter os repasses e pagamentos em dia quando a receita é pequena não é fácil, de fato. E ficamos amarrados a acordos e favorecimentos a entidades que muito têm, e pouco dão retorno à sociedade. A política do governo do Rio Grande do Sul atualmente, está presa no conceito de que a salvação pra tudo são os empresários, as empresas que abrem e os empregos que geram. Mas, além de emprego, muitas vezes mal remunerado, o que mais esses empresários oferecem à sociedade? São tão carentes assim, que precisam de abonos e benefícios fiscais, deixando de gerar arrecadações bilionárias ao estado?

Admito que é doloroso, de fato, ir na contramão desse jogo de poder do "eu posso investir, mas só invisto com um retorno do qual eu nem preciso tanto, mas vai me gerar mais lucro". É doloroso porque se dizemos "não" para alguém que pode te ferrar, certamente esse alguém vai te ferrar. 

Mas o ajuste precisa ser feito. É não é aquele ajuste da economia doméstica, simples, de deixar de investir em algum bem-estar para suprir necessidades básicas. É um ajuste de dar a cara à tapa, de nos posicionarmos, ou de o governo se posicionar, sobre de que lado nos estamos, se é do lado desse jogo econômico, ou se é do lado das pessoas, que precisam de saúde, educação, segurança e comida. A quem eu devo dar prioridade, e aguentar as consequências. Sabemos que gerir qualquer instituição pública não é fácil, mas se está no caminho certo quando as prioridades são humanas e sociais.

Não espero que essa postura surja no governo claramente neoliberal do PMDB gaúcho, mas, por favor, jornalistas e economistas, não insultem nossa inteligência comparando minhas comprinhas mensais com a complexidade do poder político e econômico que define as finanças de um estado.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Quando você diz que é ansioso, porque foi diagnosticado por três profissionais de saúde mental diferentes como tendo Transtorno de Ansiedade Generalizado... como você aborda um amigo seu que diz ser "ansioso" para dizer que o que ele sente é bem diferente do que o que você sente, sem parecer ser um chato que acha que todas as mazelas do mundo acontecem unicamente com você?




segunda-feira, 18 de maio de 2015

Política no Ensino

Nem me digno a ler alguns "jornalistas", especialmente da Veja, porque quero evitar ao máximo bufos na frente do computador e sentimento de ódio, que hoje é tão latente no Brasil. Por isso, na maioria das vezes, passo serena pelas manchetes.
Mas, como uma coluna estava se referindo à minha categoria, de professores, decidi ler, até porque procuro sempre ser o mais imparcial possível nas minhas discussões em sala de aula e, por isso, considero minha prática o mais neutra possível.
Rodrigo Constantino levanta uma afirmativa generalista para anunciar que professores gaúchos divulgaram nota de repúdio à iniciativa de uma atividade de palestra de uma ONG intitulada "Escola Sem Partido" (fundada, vejam só, por um deputado, DE UM PARTIDO!), que, pelo que entendi, falaria sobre a tal "doutrinação marxista" tão assustadora nas escolas atualmente.


Então, destrinchei alguns pontos da coluna. Antes de começar, como já sinalizei, não faço propaganda partidária em sala de aula, até porque não me identifico plenamente com nenhum partido, e acredito ser equivocado querer incutir determinada OPINIÃO PESSOAL e forma de pensar a sociedade em um espaço que deve ser prioridade o desenvolvimento autônomo e livre do pensamento e dos cidadãos. Ainda assim, indo contra o autoritarismo de ambas as partes, não podemos privar os estudantes de estudar e discutir a realidade sobre diversos espectros, e quando eles se deparam com essa realidade, é inevitável conduzir a reflexão a temas mais profundos e desenvolver a política, que, em sua raiz, é a discussão do que é público.

Política nada tem a ver com partido. "Politizar" não é sinônimo de "partidarizar".
Autonomia, cidadania, não são (ou não deveriam ser) "agenda partidária", são conceitos e concepções de sociedade que oferencem o direito das pessoas a pensar e a desenvolver suas próprias concepções.
O pensamento de Paulo Freire, demonizado nessa nossa onda de intolerância que o país vêm enfrentando, afirma a possibilidade nula da existência de neutralidade no Ensino, além de trabalhar com o desenvolvimento da autonomia e valorização das experiências dos estudantes, como produtores do conhecimento. Novamente, neutralidade PARTIDÁRIA é essencial para conseguirmos estabelecer diálogo e ampliar o espectro de informações as quais os estudantes são colocados a refletir sobre.Nesse sentido, não concordo com ordens de repúdio a espaços de expressão de opiniões diferentes, se esse fosse o caso. Neutralidade política é uma discussão sem sentido, porque trabalhar em sala de aula contextos sociais de discriminação, desigualdades, sitema econômico, é inevitável e meio impossível de contradizer o real: "A pesar de vermos favelas e condomínios de luxo, a desigualdade não existe, turma!".
Ditadura cubana? Não precisamos utilizar termos depreciativos ou endeusadores. É só trabalharmos Índice de Desenvolvimento Humano, taxas demográficas e suas interpretações para que OS PRÓPRIOS ESTUDANTES, tirem suas conclusões.
E não se preocupe, querido Rodrigo. Já fiz uma experiência em que citei nomes de países em uma tabela, e os dados foram totalmente ignorados na resposta, por declarações preconceituosas e de senso comum. Tirando os nomes, as respostas foram outras. Então, a doutrinação e o espaço de socialização midiático, infelizmente, ainda é muito mais eficiente na constituição dos sujeitos do que o estímulo ao pensamento e desenvolvimento do conhecimento proposto em algumas escolas, por alguns professores. Meu caso.

Em tempo... "ideologia", para o "tenebroso" Marx, é uma mentira. Então, trabalhar ideologia e desmascarar ideologias na sala de aula, não deveria ser tão mal visto assim. Só se você ainda quer que a ideologia impere.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O aniversário

Quando fiz 26 anos, no dia 20 de fevereiro, entrei na "crise de antes da meia-idade". Eu sei que parte dos meus pensamentos pessimistas podem ser justificados pelo momento que passo na vida, de ter tido minha casa desapropriada sem a devida indenização, estar morando em uma casa minúscula, cheia de problemas, desconfortável e com aluguel caro, driblando as dores de cabeça que a construção de uma casa envolve, ainda mais quando não se tem dinheiro para solucionar alguns problemas, enfim. Tenho motivos de sobra para me deprimir e estar infeliz com a minha situação atual.
Mas o que me incomodou nesse aniversário foi perceber que não cumpri meta nenhuma na minha vida. Nem tive tempo de traçar objetivos, quanto mais alcançá-los.
Com 16 anos, tive de me contentar com um curso de graduação que não era meu sonho, era, sei lá, minha terceira opção, sendo que as duas primeiras nem eram opções, pela falta de recursos. Depois, lutei na metade do curso pra encontrar sentido para o que estava fazendo, para a profissão a qual estava me aperfeiçoando, e acabei encontrando na vontade de mudar o mundo.
Então, 10 meses depois de me formar, passei em um concurso público para lecionar no magistério estadual. Qualquer coisa era melhor do que aguentar chefe imbecil e salário de fome no comércio, apesar de eu até gostar da minha função na empresa que estava trabalhando. Mas foi muito conveniente ser nomeada em novembro de 2012, porque no mês anterior já tinha deixado de tolerar as ignorâncias e caprichos do chefe e havia sido demitida (por quê? Honestidade.).
, fui professorar. E não tive espaço para pensar em outras possibilidades, porque tive a casa desapropriada e encarar com a minha família a responsabilidade de buscar recursos para um novo lar. E o que é melhor do que ter um emprego estável? Nessa situação, o andar da minha vida foi perfeito, não posso reclamar disso. Poderia ter sido pior. Parece que o destino traçou minha vida de forma precisa para comportar as necessidades que minha família enfrentaria nos ultimos anos.
Minha vida, até aqui, foi guiada pelas circunstâncias. Mais de 1/4 do meu tempo na Terra me deixei levar pela vida e as necessidades que ela exigia. Nunca planejei ser alguma coisa, nunca tive tempo para pensar o que queria fazer da vida. Estudei, me formei, fiz concurso, e imergi no mundo da docência.
Minha "crise do 1/4 de idade" é marcada pela falta de planos e falta de perspectivas. A docência é massante: como em qualquer trabalho, temos momentos ruins e momentos bons, convivemos com pessoas boas e pessoas maldosas. Entretanto, exijo qualidade de mim mesma. E aí que entra a parte difícil. Um bom professor precisa se envolver, ler, ler, ler, poder oferecer a mais completa orientação a seus estudantes, pensar em diferentes formas de abordagem do conhecimento, e isso, mais uma vez, exige leitura e estudo. Não que eu não goste de ler, mas essa necessidade do mundo acadêmico de saber "quem disse" e de que alguém precisa ter dito antes de você pra valer à pena a sua opinião, me fez perder a graça de ler. Ler e ter de decorar que disse, decorar as falas, porque se você não tem referências, não vale à pena ser ouvido.
E odeio fazer tudo que sou obrigada. Posso até gostar, mas se sou obrigada, em seguida, desgosto.
E as circunstâncias da vida me obrigaram a estar aqui e viver dessa forma. E, nesse caso, o que odeio?

Depois que me resignei, na formação, pela vontade de mudar o mundo, hoje percebo que só o que quero mudar é a minha vida, quem eu sou, e ser melhor para as pessoas à minha volta.

Falta de objetivos, de planos, de buscas, de riscos. Esses foram meus 26 anos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Professora de 2014

     Antes de mais nada, como a sinceridade é minha característica mais marcante e que procuro valorizar, devo admitir que quase não trabalhei esse ano. Isso porque, como entrei no mestrado no inicio do ano, a minha carga horária que é de 20h (divididas entre manhã e noite) foi condensada em dois dias na semana devido as aulas em Pelotas. Sendo assim, no primeiro semestre lecionei às quintas e sextas-feiras e no segundo, às terças e quartas-feiras. E o que mais teve nesses dias da semana?? Feriados. Assim, eu tirava micro-féiras de 12 dias a cada feriadão que rolava.

      Mesmo assim, sinto que, principalmente no final do ano, cresci como professora. Não que eu tenha me tornado maravilhosa, longe, muito longe disso, mas senti, no meu íntimo, que começou a florescer algumas características de professor que eram pouco desenvolvidas em minha pessoa. Tudo pode ser consequência da euforia de fim de ano, não pode se descartar essa possibilidade.

       Como muito autocrítica que sou, tenho de falar que estive muito desleixada esse ano, quase caindo naquele conto do "caderno amarelado": como não era mais "minha primeira vez", já tinha cartas na manga do ano passado para usar em sala de aula, mas admito que esses recursos provisórios acabaram se tornando a regra: repeti muito do que fiz o ano passado.

        Mas tudo isso acontece em prol da excelência. Eu não queria errar, não queria me estressar, não queria ter de lidar com um método ou atividade mal sucedidos. Quando preparamos coisas novas, o erro, em algum grau, sempre acontece, e a gente tem que ficar refletindo, modificando, avaliando a si mesmos, avaliando seu próprio trabalho. E eu tenho medo disso. Tenho medo de errar, de me frustrar, de perceber que não fui bem naquilo que planejei. Além da pouca criatividade que me acompanha desde alguma fase da minha vida em que passei a bloquear, sabe-se lá por qual trauma, a criação, a inventividade. 

          Criei afinidade com alguns alunos (e eu sei que o termo "aluno" remete a um individuo "sem luz", mas nunca dei muita bola para o significado que os outros dão às coisas, mas sim a forma com que eu as encaro), solicitei avidamente, mesmo que eles não percebessem, sugestões de atividades, materiais a serem utilizados em sala de aula, tudo apostando na minha incompetência.
O terceiro ano do médio foi um desafio para mim, porque não trabalhei o conteúdo no ano anterior e tudo tinha de ser novo, e no primeiro ano, inverti o conteúdo e também tive que trabalhar coisas novas com eles. Muita coisa foi massiva, exaustiva, mas também não penso que a educação de qualidade deva ser de todo e exclusivamente lúdica. O lúdico quem cria é a nossa vontade de fazer. Mas outros exercicios foram legais, mas obviamente, tudo tinha um porém, e esse porém era algum detalhe desconsiderado na elaboração que era evidenciado na aplicação. Mas qual o problema disso? Para uma pessoa depressiva, o problema era gigantesco.

      Para uma pessoa que precisou de mais de dois anos de terapia para conseguir enxergar algum vislumbre de lado bom nas coisas, inclusive em si mesma, o erro e a frustração pesam como um caminhão cegonha carregado de Pajeros em cima de ti. Para mim, qualquer mínimo ou grande detalhe que não desse certo, era motivo para acordar no dia seguinte sem querer viver. Mas, quando a gente olha de longe, percebe que nada, ou quase nada, dá certo de primeira. Principalmente quanto o "dar certo" depende de variáveis como o tempo, a disponibilidade de material e, mais do que qualquer outra coisa, de 30 a 40 adolescentes com múltiplos recursos e uma vida maravilhosa e aparentemente sem limites pra explorar. 

        Enfim, vou encurtar a reflexão porque até eu já estou me perdendo no raciocínio (o que explica a dificuldade de escrever textos acadêmicos) e morrendo de fome porque ainda não tomei café:

         Nesse segundo ano de docência, tive, também problemas pessoais sérios, que dificultaram muito o meu interesse por uma vida que realmente valesse à pena, e operei no modo automático na maior parte dos dias do ano. Por outro lado, tive de experimentar conteúdos novos e conhecer novos alunos, tive estresses e alguns adolescentes típicos que me fizeram pensar "eu não nasci pra ouvir desaforos", outros adolescentes típicos que me fizeram pensar "que criatura chata, igualzinho a mim", alguns que me fizeram não querer levantar no dia seguinte, outros que eram a única razão pra eu levantar no dia seguinte.

- Estou aprendendo aos poucos que a afinidade e o carinho pelos alunos não é inversamente proporcional à responsabilidade, tanto minha quanto deles, de estabelecer o ambiente de aprendizagem guiados pelo respeito mútuo e da prática escolar girar em torno da fundamental importância da educação e do conhecimento;
- Dentre as coisas que menos me deixam expectativas para 2015 está o estado doente da nossa sociedade, onde os jovens são expostos à vida adulta sem responsabilidades, e acabam sendo moldados pela irresponsabilidade do nosso tempo;
- Dentre as coisas que me levam para 2015 com esperanças de um ano melhor, de formação dia a dia como professora e indivíduo, é enxergar o progresso de alguns alunos de 2013 para 2014, dos quais no ano anterior eu torcia para que não aparecessem na aula, e que neste ano, a maior alegria era vê-los dialogando e participando, olhando para mim como uma pessoa que estava lá para dar suporte e liberdade para desenvolver seus conhecimentos e habilidades;
- Estive sempre me policiando de forma a me portar de acordo com meus ideais e minhas concepções sobre o mundo, e acredito que isto vêm dando relativamente certo. Como já falei do estado doente da sociedade, muitas vezes tive de fugir da minha admiração pelo Anarquismo e ser autoritária na sala de aula. Gostaria muito de ler sobre o tema e de fato me tornar uma pessoa que conheça aquilo que pratica e defende, mas não vou prometer isso a ninguém, porque não nasci para ser intelectual. Até gosto de ler, mas minha atenção flutua sempre para coisas mais objetivas.


- Quero que no 2015, eu seja obrigada a trabalhar mais, a pensar mais sobre minha prática e a errar muito. Quero errar cada vez mais.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Aborto e o Brasil

     Quando conversei com minha mãe e meu namorado sobre a legalização do aborto, rebati alguns argumentos deles falando que nos países onde o aborto é legalizado, houve também investimento em conscientização e prevenção e os números de abortos, ao contrário de aumentar diminuiram e que por isso, eu era a favor da legalização do aborto. Mas por palavras como as da minha mãe, que confundem o apoio à LEGALIZAÇÃO do aborto com o apoio AO ABORTO, que penso que essas medidas possam não dar certo no Brasil como deram em outros países. 
     Minha mãe tem aquele pensamento comum dos brasileiros de definir o que é melhor para o país, para 200 milhões de pessoas, a partir de experiências pessoais. Ela é contra o aborto porque perdeu uma filha ainda na barriga, e por ter sofrido com essa perda não consegue aceitar que alguém não queira assumir uma criança. Não condeno ela, muito longe disso, por assumir esse pensamento. Que ela vá desprezar cada pessoa que ela saiba que tenha cometido um aborto, mas ela deve respeitar a decisão de cada uma delas. Não acredito em deus e em poderes que ele possa ter sobre nossas vidas a partir da nossa adoração ou não à ele, mas não desrespeito ninguém que tenha esse pensamento, essa decisão sobre sua própria vida (desde que, como sempre, não desrespeite a minha decisão).
     Assim como, quando levantei os fatos que me levam a ser favorável à legalização do aborto, ela, e outras pessoas que souberam do causo, já levantavam o dedo para fazer julgamento pessoal da posição: "Ahhhhhh, então tu farias um aborto? Então vais abortar quando engravidares??". Quando penso em legalizar o aborto, mal penso em mim, que uso os métodos contraceptivos tradicionais até com excessiva cautela, justamente porque não me sinto preparada hoje para ter, criar, educar e mudar minha vida por ter um filho, e muito menos preparada para tomar a decisão se devo ou não aceitar essas transformações na minha vida. Mesmo que o aborto fosse legalizado, manteria minhas precauções porque o simples fato de decidir se faria ou não um aborto já exige uma enorme reflexão e maturidade da mulher que cogita a possibilidade. Agora, se eu tivesse de tomar essa decisão tão importante, gostaria que eu pudesse decidir sobre meu futuro, porque sei que eu, minha personalidade e meu modo de ver a vida, seria extremamente infeliz na vida se fosse obrigada a tomar uma atitude que não desejo (seja querer ter um filho e sofrer aborto, seja não querer um filho e ser obrigada a tê-lo).

     Aí, depois dessa discussão, até construtiva em casa, veio as eleições. E os resultados finais e parciais me fazem ver que o Brasil, a população e sociedade brasileira não está preparada para viver com direitos. O direito, pelo brasileiro em geral, é visto como uma "regalia que me dá o poder de fazer o que eu bem entender", como se o direito dissesse respeito unica e exclusivamente a mim, como se não vivêssemos em uma sociedade brasileira e mundial, onde tudo o que fizemos e apoiamos tem repercussões na vida dos outros. "Eu não voto no fulano porque ele não deu aumento à minha categoria" ou "eu voto no fulano porque ele prometeu que vai dar remedio para mim que sou aposentado". Eu não olho para a sociedade à minha volta, para as pessoas à minha volta, eu só quero mais, só estou interessada no que vai gerar algum tipo de benefício a mim. 
     A sociedade brasileira está doente, e eu não sei por onde começou isso. Talvez com os reis de Portugal lá na colonização, já que eram esbanjadores e estavam nem aí para o futuro ou para o povo. Sei lá. Tentei embarcar na Sociologia, mas me perdi por motivos pessoais, mas não sei se entender o processo faria eu me sentir melhor. Talvez eu teria mais vontade ainda de sentar na minha vidinha pacata e assistir ao apocalipse, ou suicídio social.



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Observações sobre o Homossexualismo

Meu discurso e atuação não é nem pró nem contra a causa homossexual (ou homoafetiva, o que acho um termo complicado, porque ter AFETO por uma pessoa do mesmo sexo não implica desejo sexual, mas tudo bem, é uma expressão que deve ser defendida pelos que pertencem à causa).
Tendo essa posição "em cima do muro", já pendi vezes à declarações que rechaçam, e vezes declarações que apoiam a questão homossexual em si. Em um desses momentos, refleti que, de fato, hoje vemos muito mais gays e lésbicas nas ruas do que antes. Ponto. Esse observação servia para "endossar" algumas declarações, não exatamente "homoFÓBICAS", mas que pendiam à negação aos homossexuais.

Mantenho esta constatação porque é nítida. Mas, por outro lado, passei a refletir que muitos, mas muitos casos de homens e mulheres gays existiam no mundo, no Brasil, desde que o mundo moderno existe, que eram coibidas pelo pensamento da sociedade, desde à "vergonha" até ao fato de que se assumir gay é se assumir "mulherzinha" (outro trauma machista da sociedade moderna). E assim viviam a maioria dos homossexuais do mundo, afogados em uma cultura social que os faziam questionar a si mesmo suas sensações.
Percebi isso em um programa fútil de TV, em que o ator George Takei discutiu a questão, dizendo que viveu sua vida oprimindo sua verdadeira identidade sexual porque precisava e queria construir uma carreira e isso certamente dificultaria seus anseios profissionais. Parafraseando suas palavras, ele disse mais ou menos o seguinte: eu nunca imaginei que na virada do século a sociedade fosse se transformar de tal modo que eu pudesse assumir minha personalidade por completo e ainda assim ser aceito como profissional. 
Aí está a chave. A sociedade mudou. Pode ser "antibiológico", pode existir o argumento de que "se todo mundo fosse gay, a raça humana acabaria", o que é verdade. Mas quem disse que todo mundo vai virar gay? Estão obrigando os heterossexuais a tornarem-se gays? 

Então você me diz que "estão tornando nossas crianças gays". Bom, aí eu concordo e discordo. Acredito que a pessoa tem de se conhecer antes de tudo para conhecer o outro. O problema nesse caso é a SEXUALIZAÇÃO da infância e da adolescência. O problema não é o garotinho "afetado", o problema é a criança exposta a questões que não está preparada para lidar, e aí não é a homossexualidade, é a SEXUALIDADE. Deve existir orientação, deve existir diálogo, mas a nossa sociedade, ao mesmo tempo em que cresce, ou procura crescer, tanto em alguns aspectos, por outro lado nos deixa sem saída. Colocam a todos nós expostos a uma opção de estilo de vida, e se você não tem esse estilo, faz de qualquer coisa para ter, têm de forma similar ou limitada, ou sofre por não ter, ou, ainda, se não deseja ter, vira o esquisito do grupo, região, sociedade.

Quando eu era criança eu usava sandalia da Xuxa. Lembro que elas eram de plástico, sem salto, e permitiam, por essa anatomia, a liberdade da criança brincar e correr como criança. Hoje, as mesmas "sandalinhas da Xuxa" têm salto alto. E o salto alto o que faz? Limita as possibilidades de atuação da criança e a insere precocemente no modo de vida adulto, não em uma brincadeira de escritório, mas sexualiza a criança, incentiva a ela a ser alguém que ela ainda não é, e nem tem condições cognitivas de ser ainda. Esse é um ínfimo exemplo do problema da sexualização da sociedade. Eu poderia falar das bundas em horário nobre, mas o que é "absurdo" mesmo é o tal do selinho gay da novela das 21h.

Outro espectro é a questão religiosa. Pense na situação ocorrida: a guria escreveu em um papel "Abra a sua mente, gay também é gente", trecho de uma música dos anos 90 que todo mundo canta ou já cantou bem empolgado com os Mamonas Assassinas, como mensagem a um pastor evangélico famoso, e famoso pelas declarações fortemente homofóbicas. Aí sim "homoFÓBICAS" porque nela é forte expressões que remetem ao extermínio e ódio, e não pura e simplesmente o "não concordo".
E aí eu vejo rolarem postagens na internet de pessoas acusando a moça de "cristofobia". P*** m****! Onde, me diz, onde na frase da guria tinha alguma expressão que remetesse ao ódio a Cristo, ou mesmo que subentendesse que a menina não acreditasse em um deus?? 
A repulsa que é gerada em alguns (e sinceramente, espero que na maior parte da população) não é pela crença religiosa, é pela falta justamente de princípios éticos (e religiosos, para alguns) de respeito, compreensão e até de aceitação, e inúmeras outras posturas bíblicas que remetem ao amor ao próximo e ao entendimento do outro. O que incomoda nas declarações e postura de alguns religiosos não é simplesmente a negação do direito do outro ao seu corpo (o que já seria grave), é a negação do SER HUMANO, e as conotações ao extermínio da opinião do outro. É a necessidade de transformar o outro aos seus moldes pra conseguir enxergá-lo como igual. Ele não é igual, ninguém é igual. Podemos ser todos irmãos aos olhos de um deus, se ele exista, mas justamente na sentença direciona essa visão "aos olhos de Deus". Os seus olhos que se danem! Mesmo quem dedica a sua vida à religiosidade, deveria deixar esse dever de enxergar todos "como iguais" à sua divindade, e nós, meros humanos viventes em uma sociedade que SEMPRE FOI tão plural, cabe aceitarmos as nossas diferença de opinião e opções tomadas na vida.

Não pretendo encerrar texto, mas a pretensão é apenas verbalizar algumas reflexões desenvolvidas na passagem da vida.

sábado, 23 de agosto de 2014

Ah, os esteriótipos...

Percebi isso já no ano passado.
No segundo ano do Ensino Médio leciono em Geografia, basicamente conteudos sobre população. Depois de discutir exaustivamente taxas demográficas, o que indica sobre a sociedade de um país altas taxas de natalidade (basicamente, falta de estrutura e acesso à informação, além de fraca inserção da mulher no mercado de trabalho), altas taxas de mortalidade (saúde pública fraca, dependendo dos índices, conflitos, etc). Além disso, dicutimos teorias demográficas, dentre as quais a da Transição Demográfica defende que cada país do mundo passa por 4 fases de desenvolvimento, em momentos distintos, que seriam a alta natalidade e mortalidade, posterior queda na mortalidade, diminuição dos índices da natalidade, e por fim, equilíbrio das taxas populacionais.
Pois bem, em uma avaliação, coloquei a seguinte tabela, baseada em dados oficiais, e pedi para que eles escrevessem sobre as condições de cada país, com base nas taxas demográficas apresentadas:

Segundo nossas discussões durante o trimestre, resumidamente a resposta deveria conter os seguintes aspectos:
a. A mortalidade do Brasil é a menor, o que indica uma melhor expectativa de vida que é consequencia de avanços na saúde e prevenção de doenças;
b. A natalidade em Cuba é menor, o que indica mais acesso à informação, possível inserção da mulher no mercado de trabalho, e mortalidade relativamente baixa também indica uma saúde de qualidade;
c. Nos EUA, a mortalidade tambem pode ser considerada baixa, mas em índice não melhor que Brasil e Cuba, e a taxa de natalidade não é alta, mas, de acordo com a teoria da Trasição Demográfica, deveria ser menor, já que é um país considerado desenvolvido e, por isso (acesso à informação, inserção da mulher no mercado de trabalho, entre outros fatores), deveria apresentar maior queda na natalidade;
d. Na Somália, segundo os dados, a população tem muito pouco acesso à informação e provavelmente é uma sociedade baseada na atividade agrícola, o que pode explicar parte do problema da natalidade, já que as crianças podem contribuir com a renda da família. Além disso, a alta mortalidade indica problemas na saúde e possivelmente conflitos.

Entretanto as respostas não foram tão extensas, o que não é tanto um problema. O que mais me impressionou foi o fato de que os dados foram totalmente deixados de lado quando eles "analisavam" a primeira coluna (a dos nomes), e já se punham a desenvolver respostas que alegavam que Cuba era um país pobre e de difíceis condições de vida, o Brasil era horroroso e que os EUA era a perfeição em forma de sociedade. Minha intenção não era, não é, e nunca será, impor aos meus alunos minhas concepções de verdade, mas acho interessante incitar a reflexão sobre as verdades construídas através da voz dos outros (como quando me pediram um debate sobre a Coreia do Norte e procurei levar noticias que ressaltassem ambos os lados). Pra testar se foi eu que não trabalhei o conteúdo direito, ou se realmente o primeiro impulso das pessoas era julgar pelas aparências, na prova de recuperação coloquei a mesma tabela, sem os nomes dos países:

Nesse caso, tive respostas mais coerentes quanto à análise das taxas demográficas e o que elas expressavam sobre as condições econômicas e sociais dos países.
Preciso concluir esse raciocínio??

Ontem eu estava lendo que em todos os continentes do mundo, existe a tendência da população não se interessar por músicas que não sejam de língua inglesa ou a língua nativa. Eu mesma, quando ouvi pela primeira vez uma banda espanhola (que hoje é uma das minhas "top 3"), achei bem esquisito, nem tanto pelo estilo (ska punk), mas pela forma que o espanhol soou em meus ouvidos. Ainda bem que insisti em ouvir, porque aprendi muita coisa com as músicas e sou bem menos preconceituosa com ritmos diferentes.

Outra situação que me remete ao preconceito sobre os esteriótipos: não sou muito popular no Facebook (nem em lugar algum), mas sempre que posto alguma reflexão (principalmente das mais indignadas), sempre tem umas 6, 7 pessoas que vão lá e curtem. Esses dias coloquei um desabafo mega reflexivo sobre hipocrisia, daqueles que todo mundo curte, querendo dizer "eu não sou esse tipo de pessoa", só que junto coloquei o clipe de uma música chamada "Struck a Nerve", de uma banda chamada Bad Religion. Muita gente vê essa banda com maus olhos por imaginar que seja algum tipo de "adoração ao mal", mas a mensagem é bem menos satânica: que religiões são ruins. Vá lá, não é tão ofensivo quanto "adorar o demo". Mas o que as pessoas enxergam quando vêem uma banda de rock, com o nome Bad Religion? Satanismo! E aí ninguém curtiu.


"Deu nos nervos" - Struck a Nerve [trecho traduzido]

Existe um velho homem num ônibus urbano
segurando um doce
E não é nem natal
Ele vê numa nota no obituário
que seu último amigo morreu
Há uma criança agarrando-se à
sua mãe acima do peso no frio
Enquanto eles vão comprar cigarros
E ela gasta seu último dólar
numa garrafa de vodka pra hoje a noite
E eu acho que isso deu nos nervos
Como se tivesse que virar meus olhos
Você nunca consegue sair
da linha de mira

[...]





terça-feira, 10 de junho de 2014

Eu não entendo mais nada...

Há uns anos atrás, quando divulgaram que a Copa do Mundo ia ser no Brasil, teve festa pra tudo que é lado, e os jogadores brasileiros estava super felizes e gratos por poderem vivenciar esse momento de jogar uma Copa do Mundo no seu país, que era uma honra, que tudo ia dar certo, etc, etc.
Aí, faz umas semanas, vi divulgarem no Facebook que os jogadores da Seleção Brasileira não iriam confraternizar em um jantar com a Presidenta Dilma, dando a entender que estariam descontentes com a forma de administrar o país. Mas aí, eu me pergunto: a honra e alegria de jogar uma Copa do Mundo em seu país não foi uma possibilidade conquistada pelo governo do PT, onde Lula (à época da escolha) e Dilma são um o braço direito do outro? Então, os jogadores não deveriam estar gratos pelo Governo Federal por ter feito de "tudo" para conseguir sediar o evento no Brasil??
I'm confused...

Há um ano atrás, o Ronaldo estava dizendo a plenos pulmões que não se fazia Copa do Mundo com escolas e hospitais. E parecia estar de acordo com a forma de administrar do Governo Federal em relação aos preparativos para o evento. Com a declaração, presume-se que "se eu quero a Copa no Brasil, eu sei que o governo vai deixar de investir em educação e saúde para fornecer a infraestrutura que a FIFA exige, e isso não importa, se eu quero a Copa no Brasil".
Agora, o mesmo ex-jogador de futebol se declara do lado da candidatura do principal oponente da reeleição do PT, o candidato Aécio Neves. Meu problema aqui não é o Aécio Neves, mas, já que ele é opositor ao governo, é um dos que, no principio logico, "engrossa" o coro de "não queremos Copa, queremos saúde e educação". Masssssss... o Ronaldo não queria Copa o ano passado??? 
Estou confusa...

sexta-feira, 14 de março de 2014

Não sou petista.

Nem de longe sou petista. Ainda não abstraí, ou sempre confundo, a diferença entre apartidário e antipartidário, mas o fato é que eu não voto em partidos, por mais que me digam que quando eu aperto o botão verde eu estou votando no partido.

Hoje vivo em uma cidade que é governada em seus três níveis pelo PT: o municipal, o estadual e o federal. Pessoalmente, ainda não vi nada de execrável na política de governo municipal que está no poder fazem quase dois anos. Claro que eu queria que muita coisa já estivesse melhor, já que por dezesseis anos as únicas coisas que víamos serem feitas na cidade era a carpintaria dos canteiros da cidade e um acúmulo de buracos pelas ruas fruto de mal planejamento (asfalta, pra depois pensar em escoamento). Queria que já estivesse em andamento a promessa da UPA na Junção, por exemplo. 

Entretanto, ouço muitas pessoas, das quais considero sensatas, assinalando melhorias na qualidade de vida da população. Os postos de saúde não estão piores que estavam, e ainda, têm mais medicos para realizar atendimento (eu mesma precisei usar, e fiquei surpresa com a rapidez no tempo de espera), os ônibus já não estão mais tão superlotados (gente em pé é normal), até a tranqueira da rótula da Junção deu uma leve aliviada com a redução de ônibus entrando e saindo daquele espaço. A qualidade e a valorização do serviço publico também parece estar melhorando. Não defendo o PT, mas devo admitir que vejo alguns progressos sociais na cidade desde 2013. Também devo falar que as ruas não estão mais tão coloridas, mas, afinal, o que importam são as pessoas e não as plantas!

Sobre o governo estadual, nas mãos do PT a mais de três anos, aí sim, não tenho nada de bom para falar. Discordo da maneira autoritária com que o governador impõe suas regras e a forma nada educada com que se direcionou aos professores (classe a qual pertenço) quando reivindicavam seus direitos. Não somente os professores, mas pouco ou quase nada foi atendido de reivindicações por melhorias em todos setores sociais. Faço críticas ao meu irmão quando falo que ele é individualista ao condenar o governo federal por não atender às reivindicações da categoria dele, mas aqui posso também estar sendo individualista, mas porque me ofendi profundamente com a postura irônica do governador perante as reivindicações dos professores estaduais. Me senti mais ofendida do que desatendida em minhas necessidades.

Desde 2006, quando entrei para a universidade federal, desenvolvi todos os meus estudos e carreira profissional durante os mandatos do PT no governo federal. Como nunca puxei saco de professor pra conquistar bolsa de pesquisa, sempre fui assistida pelo programa federal de Bolsa Permanência e recebia benefício de redução de passagem de ônibus; recebi subsidio para apresentar trabalhos em outras universidades, quando solicitei, e conclui o curso de graduação em uma universidade federal gratuíta.

Quando precisei de emprego no mercado de trabalho, consegui sem muita dificuldade (o que significa que fui beneficiada com o aumento de postos de trabalho anunciados por anos nas propagandas eleitorais), e minha qualificação lá na universidade federal me possibilitou ser aprovada em um concurso público estadual que oferecia mais de 10.000 vagas e somente pouco mais de 5.000 foram preenchidas.

Particularmente, gosto da postura do ex-presidente e da atual presidente em muitas de suas colocações, pois acredito no desenvolvimento que vivi e vivo no país, onde vejo, de fato, mais oportunidades para os que não podem "comprar" tudo, como por exemplo eu, que sem uma universidade federal, jamais teria concluído uma graduação no ensino privado. Por mais que discorde, por exemplo, do incentivo excessivo ao consumo e à priorização de politicas de governo voltadas para o crescimento econômico, os setores sociais também evoluíram desde 2002. Podemos fazer ressalva quanto ao "assistencialismo", mas o verbo assistir, de dar assistência, não significar simplesmente "dar"; o assistente de dentista não faz o trabalho do dentista, faz? Ele só oferece apoio às suas atividades autônomas.

Enfim, discussão política é extensa e infindável, mas hoje em dia tem sido impossível fazer isso sem surgirem ofensas pessoais ou pensamentos preconceituosos ou radicais. Não apóio o PT, não sou petista, mas tenho que admitir que a década de 2000 foi muito melhor que a década de 1990. Não digo que apoio o(s) programa(s) de governo(s) do PT, só admito que algumas medidas estão se convertendo em ganhos sociais. Por mim, todo o mundo seria como em Marinaleda, e ninguém cobiçaria o carro do outro e se martirizaria de inveja da vida de outra pessoa.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Proibir máscaras: Afinal, repressão ou democracia?

Estava eu hoje, na inocência da sala de espera de um consultório médico. E o que tem num consultório médico? Revistas velhas. Revistas Veja velhas. Eis que pego uma aleatoriamente, folheando as páginas, distraída... propaganda, pequenas notas, propaganda, propaganda, umas 3 ou 4 páginas de entrevista com o maravilhoso, espetacular, criativo e irrelevante Manoel Carlos (que, aliás, do nada, em meio a uma conversa sobre Helenas, surge uma pergunta e resposta sobre o atual governo - crítica, certamente), propaganda, e uma reportagem de duas páginas sobre os conflitos na Ucrânia. Nesse ponto, voltei à capa e percebi que a edição era de 29 de janeiro deste ano (parabéns, doutor! revistas só dois meses atrasada, é um avanço - dessa vez, sem ironia; ok, um pouco).
O título dizia " O fogo cruzado de Kiev". Corrijo-me: a reportagem ocupava duas páginas, entretanto, grande parte era preenchida por uma impactante foto de fogo e destruição, e outra com padres em meio ao conflito. A reportagem fazia alusão às outras manifestações vivenciadas nos últimos dois anos, como na Síria e no Egito, e argumentava que os conflitos só acabam quando "o mais forte, consegue se sobrepor ao mais fraco". No caso da Ucrânia, separam os lados em - o governo opressor - e - jovens comuns, pessoas direitas, em busca de melhores condições de vida.
A reportagem segue dando mais alguns detalhes importantes para a compreensão do conflito; ela não chega a ser "imparcial" (o que é óbvio, sendo uma reportagem publicada na revista Veja), mas um leitor mais atento e com olhar mais relativo consegue compreender a questão abordada sem ser levado para um dos lados - sem contar a inclinação em tratar tudo que vem do governo como "repressor", "atrasado", e encerrar a reportagem com "eles (o povo) não querem que seu país receba ordens dos russos" - acredite, isso é o mais perto do imparcial que já li nas Vejas de sala de espera.
Mas o que me chamou àtenção foi o seguinte trecho:
"Os protestos arrefeceram e, na semana passada, Yanukovich obteve no Congresso a aprovação de um conjunto de leis, inspiradas nos mecanismos de repressão a opositores da Rússia, que proíbe o uso de máscaras e capacetes nas demonstrações e as carreatas com mais de cinco veículos (...) O povo voltou às praças nevadas, desta vez dispostos a quebrar tudo. Manifestantes lançaram coquetéis molotov contra os soldados, que responderam com balas de borracha. Cinco pessoas morreram. O governo ucraniano demonstrou estar bem alinhado com a estratégia russa de intimidação dos cidadãos (...)".
Destaco os trechos " mecanismos de repressão", ao se referirem às leis que incluem a proibição do uso de máscaras (entende? é "repressivo" proibir o uso das máscaras), além das passagens que reproduzem a violência das manifestações sob um ângulo que a torna "justificável".
Aí eu penso na situação do Brasil. Também lançaram o projeto de lei que próibe o uso de máscaras em protestos no Brasil. O que dizem os jornalistas da Veja?
Primeiro, reportagem que não abre a perspectiva de repressão da medida:

Segundo, apresenta a crítica ao uso de máscaras em protestos:

Terceiro, a coluna de um jornalista que diz que "a medida me agrada":

Fazendo uma pesquisa rápida encontram-se vários exemplos onde a medida é apresentada sempre como uma forma de tornar as manifestações mais "legítimas", e tratam os manifestantes brasileiros como "vândalos". Não vou dizer que não me tapo de nojo das criaturas que aproveitam a loja depredada para levar uma TV de LCD pra casa, mas lendo outras fontes, entendo a simbologia de destruir espaços de reprodução do capitalismo, muitas vezes brutal. Quem nunca ficou p*** com o juros do banco, em alguma situação? Vai dizer que você não sente uma pontada de inveja por que trabalha 44 horas semanais durante 335 dias do ano para ganhar pouco, enquanto o rico aparece na revista Caras gastando milhões em um só dia? Você também quer esse luxo? Ok, eu também quero, mas o que faz uns terem e outros não, é que o sistema capitalista tira de você para das para o outro. Infelizmente é assim, e nem quero dizer aqui que o capitalismo é de todo ruim (pelo menos, por enquanto... vá que eu leia mais sobre isso e acabe não vendo mais lado positivo). Só quero dizer que a ideia de destruir bancos e lojas vêm da concepção de atacar símbolos do capitalismo e da espoliação.

Enfim... tudo isso porque achei curioso, mais uma vez, encontrar evidência de como é volátil a opinião da direita/reacionários/ricos/qualqueroutraclassificação, dependendo da situação em que quer defender...

Ucrânia

Brasil

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Seminário Integrado e Ensino Médio Politécnico

Quando iniciei neste ano a minha carreira docente, me foi designada, além de ministrar Geografia, a disciplina de Seminário Integrado em um primeiro ano do Ensino Médio noturno. Como estou no começo da caminhada como professora, é bastante difícil construir um texto crítico em relação ao sistema escolar o qual estou me adaptando. Entretanto, já no quase encerramento das atividades na "disciplina", acredito ter constituído algumas concepções, que nem sei se vão de acordo com a proposta do Ensino Médio Politécnico ou outras implicações que este possa oferecer.
Particularmente, minha experiência no Seminário Integrado foi assustadora. Assustadora porque entrei na escola, nunca havia lecionado a disciplina de Geografia (além dos estágios) e já me intimam mais um desafio novo e imprevisível. Sem saber muito bem qual o objetivo da proposta da "disciplina", fui tendo algumas ideias sobre como desenvolver o espírito crítico nos alunos, em relação ás questões levantadas em sala de aula - os problemas do bairro. Entretanto, em alguns momentos do ciclo, meu processo criativo era podado por exigências do currículo e do cronograma, e como sou uma pessoa que traumatiza fácil, essas limitações acabam incidindo além do momento da disciplina de SI.
Por outro lado, a pesar desses choques de ideias, fui constituindo uma caminhada diferente na minha turma: como eram poucos alunos, o projeto de pesquisa limitou-se a um só, tendo como problemática as inquietações sobre o bairro: serviços públicos, poluição, etc. Adotei ao longo do ano a metodologia de introduzir aos alunos as etapas do método de pesquisa através de textos, questionamentos, discussões e construção coletiva de cada item que tem por objetivo organizar e desenvolver uma pesquisa: tema, problema, objetivos, metodologia, aplicação e análise. As discussões produzidas em sala de aula foram mais interessantes e construtivas que os produtos escritos propriamente, mas a exigência de documentos avaliativos ainda tem um peso forte e quase que escuso, e a escrita acaba tendo de ser exigida.
Mesmo com os percalços, de falta de comprometimento, disponibilidade de tempo, a confusão de trabalhar com um número de alunos durante a semana e esse número ser reduzido nos sábados, em que muitos trabalham e justificam sua ausência (dificulta a continuidade do trabalho), as limitações impostas e minhas próprias limitações por nunca ter trabalhado com a apresentação do método de pesquisa, acredito que, mesmo que o produto final possa carecer de conteúdo, o objetivo de instigar a curiosidade e o diálogo foi cumprido.

Pensando não na proposta do Ensino Médio Politécnico propriamente, mas em proposições sobre como a inovação do Ensino Médio poderia se desenvolver, o sistema escolar carece de unidade. A proposta é de interdisciplinaridade, mas em absolutamente nenhum momento das atividades de SI na turma em que eu regia, tive a colaboração de outros professores de outras áreas do conhecimento. Independente se foi por falta de comunicação, falta de tempo ou falta de vontade, o fato é que FALTOU.
A integração e interdisciplinaridade resumidas em um disciplina já é conflituoso, ainda mais quando o trabalho desenvolvido nessa disciplina é suprido por apenas um professor, com suas limitações técnicas e conteudistas. 
Trabalhar com a pesquisa e a interdisciplinaridade deve abarcar todo o projeto escolar. Todos os professores e currículos devem estar comprometidos no auxílio e mediação do processo de busca de conhecimento dos alunos. A disciplina de SI não precisa necessariamente deixar de existir, mas deve ser encarada como um espaço de compilação dos conhecimentos, dividida e orientada por todos os professores que possam colaborar com o desenvolvimento da pesquisa.
Podemos usar o "tema gerador", as propostas dos alunos, dos professores, da comunidade... independente da fonte, temos que trabalhar para que todas as disciplinas forneçam suporte para o desenvolvimento criativo dos alunos. Várias pesquisas podem ser feitas, vários objetos podem ser apontados, vários momentos podem ser apresentados, desde que tenham o suporte e sejam abarcados por todo o corpo escolar. Usando um exemplo simplista, as disciplinas de Geografia, Sociologia, História,Biologia, Física, Português, etc. devem se estruturar de maneira que auxiliem em sua parte no projeto de pesquisa do Seminário Integrado, e o espaço da disciplina SI servindo como sintetizador desses conhecimentos no desenvolvimento de hipóteses e soluções para o problema instituido sob várias possibilidades.

Minha atividade no SI neste ano de 2013 foi enriquecedora, tanto para mim quanto, acredito, para meus alunos, mas certamente poderia ser desenvolvida por meios mais ricos e produzindo materiais mais completos. A atuação não foi decepcionante, o que frustrou a caminhada foi a falta de unidade escolar nos projetos. Sendo objetiva, sim, me senti prejudicada no sentido de encarar sozinha na minha turma (como outros professores encararam em suas regências) as dúvidas e muitos assuntos ("conteúdos") que poderiam ser muito mais produtivamente abordados e desenvolvidos se outros professores de áreas distintas tivessem espaço maior para colaborar com o desenvolvimento científico da turma.


sábado, 3 de agosto de 2013

Se reconhecer é maior que o reconhecimento.

Como o ser humano é bobo...
(Dessa vez, não é nenhum texto crítico)

A gente fica todo "se achando" quando o nosso nome, nosso trabalho é lembrado. O mais gostoso disso é quando você não procura por reconhecimento, só pura e simplesmente faz o seu trabalho da melhor maneira possível, sem auto-promoção, e a valorização para nós (pessoas simples) é uma mera menção, é um "não esquecemos de ti porque fostes importantes".
Eu sou do tipo que não valoriza o fato de ter passado no primeiro vestibular, de ser elogiada por um professor, de ter passado no primeiro concurso do magistério estadual que fiz em primeiro lugar na área pela CRE. Não mesmo. Quem me conhece, nem sabe direito que conquistei essas coisas, falo aqui, agora, pra evidenciar o que, de fato, me deixa feliz.
Eu sou do tipo que fica mais realizada quando os amigos se formam, quando os amigos são aprovados, quando ouço um simples "como a Débora é...", seguida de um adjetivo singelo. Fico mais boba ainda quando não dizem pra mim, quando descubro por acaso que meu trabalho, minha amizade, meu esforço são valorizados.
Isso aconteceu hoje quando li uma historinha do Album do PIBID FURG, que o autor nem deve ter pensado "uó, a Débora foi importantíssima", mas só de eu, uma "estrangeira" do PIBID, que estava lá porque a professora coordenadora me tinha como bolsista e necessitava de mim para auxiliar o desenvolvimento de seu trabalho, acabava sendo mais aprendente do que auxiliadora, ser citada no registro de um trabalho tão importante, me deixa contente.
No fim, eu deveria mais é ter reprovado e ficado mais um ano na FURG para continuar no projeto! Mas não, precisava me formar e trabalhar, tenho uma filha canina pra sustentar...

Mas então, essas coisas que me fazem feliz. Ganhei a semana quando li "uma aluna para ajudar na coordenação" e "Prestando atenção a que ninguém se perca de estação, nossa colega nos acompanha e ajuda na organização do trem da partida a chegada". 
Como ganhei a semana outro dia que uma aluna disse "Bah professora, não gosto das suas aulas porque elas fazem a gente pensar".
Ou quando minha cunhada e amiga disse "Só tu mesmo pra me fazer rir".
Ou quando minha mãe não entende o que é uma pós-graduação, que eu penso "ok, vamos em frente, nenhuma conquista é unânime".

Me deixa feliz saber que eu posso ir adiante, e descubro que posso ir adiante quando vejo que, sem esforço pessoal pelo retorno evidente, o que fiz naturalmente ao longo do trajeto teve significado para outras pessoas.

Nesse sentido, a carreira de professora é enriquecedora e frustrante, porque quando não sentimos retorno dos alunos, sentimo-nos fracassados. Mas aqueles pequenos momentos, pequenos reconhecimentos, em que vemos o entendimento nos olhos dos nossos alunos, uau, é o que me faz acreditar.

Quem me conhece intimamente, sabe que atualmente ando (e muitos andam) revoltada com a atitude de indivíduos na sociedade, e sabe dessa minha falta de auto-valorização, e vai entender que o que eu quero com esse texto é mostrar que: você não precisa de um holofote para ser alguém importante, você precisa do seu esforço e dos seus amigos.



sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Coxinha" não me representa!

Como quando aconteceram as primeiras aparições de fotos "mascaradas" com aquela imagem que, hoje sei, refere-se ao filme "V de Vingança", primeiramente ignorei, mas depois decidi descobrir a que diabos se referia a expressão "coxinha", que têm pululado nas redes sociais fazendo referência, pelo que percebo, à políticos de direita e conservadores.
Então, fui tentar entender o termo, numa rápida pesquisa na internet.

Depois de ler algumas postagens explicando a origem do termo (paulistano), tentei fazer acepções a respeito de seu uso atual e sua semântica, e não consegui encontrar sentido. Posso ser uma humana de capacidade inferior que não compreende expressões explicitamente marcantes? Posso, mas não me sinto à vontade em relacionar o termo "coxinha" em sua referência original com sua evolução para classificar "pessoas que querem ostentar um status superior, com códigos próprios" (e também não entendo a relação dessa justificativa com os políticos reacionários os quais tem sido referidos pelo termo).

Não vou dissertar sobre o tema, apenas digo que não me faz sentido, e nunca fará, a utilização da palavra "coxinha" pra referir-me a pessoas, independente da índole que o termo pretenda designar. Acho simplesmente deslocado.


A seguir, texto extraído de <http://leorossatto.wordpress.com>, que, me elucidou sobre o sentido do termo como tem sido empregado, mas não me convenceu sobre sua justificativa (não é crítica quanto ao artigo, é apenas uma barreira minha de não encontrar a lógica no uso do termo para o fim atualmente usado):



O Coxinha – uma análise sociológica

Um fenômeno se espalha com rapidez pela megalópole paulistana: os “coxinhas”. É um fenômeno grandioso, que proporciona uma infindável discussão. A relevância do mesmo já faz com que linguistas famosos se esforcem em entender a dinâmica do dialeto usado por esse grupo, inclusive.
Afinal, quem são os coxinhas, o que eles querem, como esse fenômeno se originou?
O que eles são?
“Coxinha”, sociologicamente falando, é um grupo social específico, que compartilha determinados valores. Dentre eles está o individualismo exacerbado, e dezenas de coisas que derivam disso: a necessidade de diferenciação em relação ao restante da sociedade, a forte priorização da segurança em sua vida cotidiana, como elemento de “não-mistura” com o restante da sociedade, aliadas com uma forte necessidade parecer engraçado ou bom moço.
Os coxinhas, basicamente, são pessoas que querem ostentar um status superior, com códigos próprios. Até algum tempo atrás, eles não tinham essa necessidade de diferenciação. A diferenciação se dava naturalmente, com a absurda desigualdade social das metrópoles brasileiras. Hoje, com cada vez mais gente ganhando melhor e consumindo, esse grupo social busca outras formas de afirmar sua diferenciação.
Para isso, muitas vezes andam engomados, se vestem de uma maneira específica, são “politicamente corretos”, dentro de sua noção deturpada de política, e nutrem uma arrogância quase intragável, com pouquíssima tolerância a qualquer crítica.
A Origem
Existem muita controvérsia a respeito do tema. Já foram feitas reportagens para elucidar o mistério, sem sucesso, mas é hora de finalmente  revelar a verdade a respeito do termo.
 A origem do termo “coxinha”, como referência a esse grupo diferenciado, não tem nada de nobre. O termo é utilizado, ao menos desde a década de 80, para se referir aos policiais civis ou militares que, mal remunerados, recebiam também vales-alimentação irrisórios, também conhecidos como “vales-coxinha” (os professores também recebem, mas não herdaram o apelido). Com o tempo, a própria classe policial passou a ser designada, de forma pejorativa, como “coxinhas”. Não apenas por causa do vale, mas por conta da frequência com que muitos policiais em ronda, especialmente nas periferias das grandes cidades, acabam se alimentando em lanchonetes, com salgados ou lanches rápidos, por conta do caráter de seu serviço.

Reação da coxinha, o salgado injustiçado, ao ver seu nome associado ao grupo social
Os policiais, apesar de mal remunerados, são historicamente associados à parcela mais conservadora da sociedade, por atuarem na repressão aos crimes, frequentemente com truculência. Com o a popularização de programas policialescos como Aqui Agora, Cidade Alerta e Brasil Urgente, o adjetivo coxinha passou a designar também toda a parcela de cidadãos que priorizam a segurança antes de qualquer outra coisa. Para designar essa parcela que necessita de “diferenciação” e é individualista ao extremo, foi um pulo.
Expoentes
Não cabe citar socialites ou coisa do tipo. São pessoas que vivem em um mundo paralelo essas daí. Mas vou citar três criadores de tendências no universo coxinha:
1) O “engraçado”: Tiago Leifert

Um exemplo do que o Tiago Leifert trouxe pro jornalístico Globo Esporte: apostas babacas envolvendo a seleção da Argentina
Uma característica importante do coxinha padrão é tentar ser descolado, descontraído e não levar as coisas a sério. E nisso o maior exemplo é esse figurão da foto acima. Filho de um diretor da Globo, cavou espaço na emissora para introduzir o jornalismo coxinha na grade de esportes da Globo. Jogos de futebol valem menos do que as piadas sem graça sobre os jogos, metade do Globo Esporte é sempre sobre vídeo-game ou sobre a dancinha nova do Neymar, e TUDO vira entretenimento, não esporte.
Prova disso são declarações do próprio, como a declaração em que ele diz que não leva o esporte a sério, ou quando fala que o Brasil não é o país do futebol, é o país da novela. Isso revela duas características do coxinha default: ele não aceita críticas (e isso fica claro pelo número imenso de usuários bloqueados no Twitter pelo Tiago Leifert – incluindo este que vos escreve) e ele não tem conteúdo, provocando polêmicas para aparecer. Tudo partindo, obviamente, da necessidade quase patológica de diferenciação.
2) O “bom moço”: Luciano Huck

A aparência de bom moço – só aparência
O apresentador, que revelou beldades como a Tiazinha e a Feiticeira na Band, na década de 1990, virou, na Globo, símbolo do bom-mocismo coxinha. Faz um programa repleto de “boas ações”, que, no fundo, são apenas uma afirmação de superioridade, da mesma forma que a filantropia dos Rockfellers no início do século XX. Puro marketing.
Quando você reforma um carro velho ou uma casa, além de fazer uma boa ação, você se autopromove. Capitaliza com o drama alheio mostra que, além de “bondoso”, você é diferente daquele que você está ajudando. Como preza a cartilha do bom coxinha.
Além disso, Luciano Huck é a representação da família bem sucedida e feliz. Casado com outra apresentadora da Globo, Angélica, forma um dos “casais felizes” da emissora. Praticamente uma cartilha de como montar uma família coxinha. “Case-se com alguém bem sucedido, tenha dois ou três filhos, e leve eles para festinhas infantis junto com outros filhos de famosos”.
Para se mostrar engajado e bom moço, Huck deu até palestra sobre sustentabilidade na Rio+20. Irônico, pra quem foi condenado por crime ambiental, em Angra dos Reis. Ele fez  uma praia particular sem autorização. Diferenciação, novamente. Isolamento. Características típicas do coxinha default. Assim como “ter twitter”. Mas o twitter dele é praticamente um bot, só serve pra afagar seus amigos famosos e mandar mensagens bonitinhas.
3) A “Coxinha Política”: Soninha Francine

Soninha, em evento do PPS: “onde foi que eu me enfiei?”
O terceiro e último (graças a Deus) exemplo de coxinha é a figura da imagem acima. Soninha Francine deve ser o maior caso de metamorfose política do Brasil. Até 2006 era petista convicta, mas o vírus da COXINHICE já afetava seu cérebro, a ponto dela sair na capa da Época em 2001 falando “eu fumo maconha”, provavelmente por um brilhareco.
Daí ela saiu do PT, entrou no PPS, caiu nos braços de José Serra e do PSDB paulista e se encontrou. Tenta conciliar a fama de “descolada”, adquirida nos anos como VJ da MTV, com uma postura política típica de um coxinha padrão: individualista e conservadora. E, pra variar, manifesta tais posturas via… Twitter. Emblemático foi o dia em que Metrôs BATERAM na Linha Vermelha e ela, afogada em seu individualismo, disse que não encarou nenhum problema e que o Metrô estava “sussa”. Assim como a acusação de “sabotagem” do Metrô às vésperas da eleição de 2010.
Soninha ajuda a definir o estereótipo do coxinha default. O coxinha tenta de forma desesperada parecer um cara legal, descolado e antenado com os problemas do mundo. Mas não consegue disfarçar seu individualismo e sua necessidade de diferenciação. Não consegue disfarçar seu rancor quando os outros passam a ter as mesmas oportunidades e desfrutar dos mesmos serviços que ele.
Conclusão
O coxinha é um fenômeno sociológico disseminado em vários lugares, mas, por enquanto, só “assumido” em São Paulo (em outras cidades, os coxinhas ainda devem ter outros nomes). Não por acaso, tendo em vista que São Paulo é um dos ambientes mais individualistas do Brasil.
São Paulo é uma das cidades mais segregadas do país. É uma cidade de grande adensamento no centro, com as regiões ricas isoladas da periferia. A exclusão é uma opção dos mais ricos. Eles não querem  se misturar com o restante da população. E, nos últimos anos, isso ficou mais difícil: não dá mais pra excluir meramente pelo poder econômico. Daí, é necessário expor um personagem, torná-lo um padrão, pra disseminar essa mentalidade individualista e conservadora: é aí que surge o coxinha.
E isso é bom. Porque o coxinha, hoje, é exposto ao ridículo pelo restante da sociedade. Até algum tempo atrás, ele era apenas um personagem latente. Ele não aparecia, portanto, não podia ser criticado ou ridicularizado. No final, o surgimento dos coxinhas só reflete a mudança do nosso perfil social. E, por incrível que pareça, o amadurecimento de nossa sociedade.