quarta-feira, 5 de março de 2014

Proibir máscaras: Afinal, repressão ou democracia?

Estava eu hoje, na inocência da sala de espera de um consultório médico. E o que tem num consultório médico? Revistas velhas. Revistas Veja velhas. Eis que pego uma aleatoriamente, folheando as páginas, distraída... propaganda, pequenas notas, propaganda, propaganda, umas 3 ou 4 páginas de entrevista com o maravilhoso, espetacular, criativo e irrelevante Manoel Carlos (que, aliás, do nada, em meio a uma conversa sobre Helenas, surge uma pergunta e resposta sobre o atual governo - crítica, certamente), propaganda, e uma reportagem de duas páginas sobre os conflitos na Ucrânia. Nesse ponto, voltei à capa e percebi que a edição era de 29 de janeiro deste ano (parabéns, doutor! revistas só dois meses atrasada, é um avanço - dessa vez, sem ironia; ok, um pouco).
O título dizia " O fogo cruzado de Kiev". Corrijo-me: a reportagem ocupava duas páginas, entretanto, grande parte era preenchida por uma impactante foto de fogo e destruição, e outra com padres em meio ao conflito. A reportagem fazia alusão às outras manifestações vivenciadas nos últimos dois anos, como na Síria e no Egito, e argumentava que os conflitos só acabam quando "o mais forte, consegue se sobrepor ao mais fraco". No caso da Ucrânia, separam os lados em - o governo opressor - e - jovens comuns, pessoas direitas, em busca de melhores condições de vida.
A reportagem segue dando mais alguns detalhes importantes para a compreensão do conflito; ela não chega a ser "imparcial" (o que é óbvio, sendo uma reportagem publicada na revista Veja), mas um leitor mais atento e com olhar mais relativo consegue compreender a questão abordada sem ser levado para um dos lados - sem contar a inclinação em tratar tudo que vem do governo como "repressor", "atrasado", e encerrar a reportagem com "eles (o povo) não querem que seu país receba ordens dos russos" - acredite, isso é o mais perto do imparcial que já li nas Vejas de sala de espera.
Mas o que me chamou àtenção foi o seguinte trecho:
"Os protestos arrefeceram e, na semana passada, Yanukovich obteve no Congresso a aprovação de um conjunto de leis, inspiradas nos mecanismos de repressão a opositores da Rússia, que proíbe o uso de máscaras e capacetes nas demonstrações e as carreatas com mais de cinco veículos (...) O povo voltou às praças nevadas, desta vez dispostos a quebrar tudo. Manifestantes lançaram coquetéis molotov contra os soldados, que responderam com balas de borracha. Cinco pessoas morreram. O governo ucraniano demonstrou estar bem alinhado com a estratégia russa de intimidação dos cidadãos (...)".
Destaco os trechos " mecanismos de repressão", ao se referirem às leis que incluem a proibição do uso de máscaras (entende? é "repressivo" proibir o uso das máscaras), além das passagens que reproduzem a violência das manifestações sob um ângulo que a torna "justificável".
Aí eu penso na situação do Brasil. Também lançaram o projeto de lei que próibe o uso de máscaras em protestos no Brasil. O que dizem os jornalistas da Veja?
Primeiro, reportagem que não abre a perspectiva de repressão da medida:

Segundo, apresenta a crítica ao uso de máscaras em protestos:

Terceiro, a coluna de um jornalista que diz que "a medida me agrada":

Fazendo uma pesquisa rápida encontram-se vários exemplos onde a medida é apresentada sempre como uma forma de tornar as manifestações mais "legítimas", e tratam os manifestantes brasileiros como "vândalos". Não vou dizer que não me tapo de nojo das criaturas que aproveitam a loja depredada para levar uma TV de LCD pra casa, mas lendo outras fontes, entendo a simbologia de destruir espaços de reprodução do capitalismo, muitas vezes brutal. Quem nunca ficou p*** com o juros do banco, em alguma situação? Vai dizer que você não sente uma pontada de inveja por que trabalha 44 horas semanais durante 335 dias do ano para ganhar pouco, enquanto o rico aparece na revista Caras gastando milhões em um só dia? Você também quer esse luxo? Ok, eu também quero, mas o que faz uns terem e outros não, é que o sistema capitalista tira de você para das para o outro. Infelizmente é assim, e nem quero dizer aqui que o capitalismo é de todo ruim (pelo menos, por enquanto... vá que eu leia mais sobre isso e acabe não vendo mais lado positivo). Só quero dizer que a ideia de destruir bancos e lojas vêm da concepção de atacar símbolos do capitalismo e da espoliação.

Enfim... tudo isso porque achei curioso, mais uma vez, encontrar evidência de como é volátil a opinião da direita/reacionários/ricos/qualqueroutraclassificação, dependendo da situação em que quer defender...

Ucrânia

Brasil

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