quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Eu não aguento mais pregação.

As concepções sobre as coisas são diferentes entre as pessoas, então não é justo falar sobre "libertação" como se existisse apenas um caminho para tal.
É impressionante, falar sobre "lavagem cerebral" é comum, é cotidiano, mas ter consciência e percepção de que se está sofrendo uma lavagem cerebral é péssimo, porque é algo que você sabe que é péssimo, é nojento, e você não consegue sair dessa.
Alguns podem dizer que "libertação" é se ver livre de qualquer padrão a seguir, se ver livre de qualquer regra imposta para se viver, para se pensar. Outros dizem que "libertação" é se libertar dos desejos mundanos, de se livrar dos pecados, que "libertação" é servir e amar a um Deus que irá te tornar livre se você for gente boa. Até aí tudo bem, são conceitos que cada pessoa tem, diferentes. Mas, a religião se torna uma prisão justamente pela pregação. Se não fosse essas toneladas de induções, essa tonelada de informações, de imposições, de ameaças sobre "Deus", a religião não seria uma coisa tão abominável por pessoas que querem libertar seu pensamento dos padrões, esse padrões que isolam uns aos outros por comunidades, credos, culturas e nacionalidades.
Você liga a TV, e recebe dezenas de propagandas sobre cantores góspeis, gospels, ou sei lá eu qual o plural correto, recebe mais dezenas de propagandas sobre igrejas, sobre campanhas religiosas. Você vai ver um programa na TV, e tem mais gente te impondo a religião, tentando te convencer as pessoas de que não se pode ser feliz sem "Deus em nossas vidas". Aé minha banda favorita veio com uma estrofe dizendo "Porem estou disposto a entender o que eu sinto, E mostrar o quao forte eu sou para... Acreditar em voce" (claro, uma canção pode remeter a várias interpretações, mas vai que não se encaixa direitinho). Você participa de comunidades que a princípio não possuem ligação nenhuma com religião, grupos que tratam de doenças, de psicologia, e volta e meia surgem várias pessoas com o mesmo argumento de "Deus no coração". Mas, nesse caso, nos transtornos psiquicos, eu me pergunto: se a solução pra essa pessoa é se apegar em Deus, que ele cura tudo, porque essa pessoa ainda sofre dos mesmos problemas que um "pagão" sofre?
Até os grupos ateus vivem sua vida em função da religião. Não quero aqui generalizar, é claro que nem todo ateu é obcecado com essa história, podem ser pessoas bem resolvidas e despreocupadas com isso, mas os grupos que eu tenho acesso, grande parte das coisas acontecem assim, tentando desacreditar religiões e místicas.
Religião é um conceito macabro, nos deixa presos a ela, mesmo que queiramos distância dela. Claro, ela pode ser "benéfica", de algum ponto de vista, mas mesmo assim, você tem que se manter preso a ela. É uma ferramenta útil essa. Em tempos como os de hoje, é assustador se sentir sozinho, é um mecanismo para não nos desesperarmos, pra não nos sentirmos sozinhos e "impotentes" com essa desgraça coletiva, mas ninguém pára pra pensar porquê as coisas estão assim, se o "Deus Onipotente" estava lá pra ser justo, mas não foi.
Isso faz uma "lavagem cerebral" nas pessoas. Eu, por exemplo, não que eu abomine a idéia de um Deus, só não quero viver minha vida sendo obrigada a venerá-lo. Mas eu não consigo isso, eu passo por problemas, e logo já penso que estou sendo "castigada" porque "ignoro" a existência de um "deus". Isso não é uma prisão? Não é uma prisão você querer ser apenas feliz, e ser "obrigado" a ter de dedicar uma porção da sua vida em templos, em rezas, nossa vida que é tão curta e é única, em dedicar 1/3 do seu tempo a pedir, a agradecer e a venerar um ser que é tido como o "justo", o "onipotente" e "onipresente", mas que deixa o mundo do jeito que está, que "dá" doenças a pessoas boas, que "tira" a vida de pessoas boas, e "deixa" os corruptos viverem num mar de grana. Sim, há quem diga que "depois da morte temos nossa recompensa", mas peraí, ninguém me garante que meu espírito vai se perpetuar e que vou aproveitar tudo de bom, e ser compensada por tudo que sofri na vida, se eu vivê-la venerando um Deus tão injusto.
É isso, é essa a lavagem cerebral. Eu acordo no meio da noite com a cabeça a mil, e a primeira coisa que penso é que "é castigo eu não dormir bem por eu 'rejeitar' Deus". Esse tipo de mecanismo é o que me faz lutar contra essas imposições, é perceber a tamanha palhaçada que a sociedade religiosa tenta nos incutir, tenta, e consegue nos fazer ter medo, nos fazer agregar a ela todas as alegrias e infelicidades da vida.
Por mais que pudesse ser saudável pra mim, especificamente, não me sentir sozinha, transferir minha cura para um ser superior, por sofrer de problemas psiquicos que atrapalham por demais a minha vida, por mais que uma religião, uma bitolação pudesse me fazer ESQUECER meus problemas, pudesse me fazer enganar que meus problemas estavam sendo solucionados (pensando assim, é bom por um lado, mas voltamos à prisão por outro), eu não quero, eu vou lutar sozinha pra me sentir bem e ser uma pessoa LIVRE. Mesmo que minha cabeça sofra, mesmo que minha vida sofra, mesmo que o medo de ser "castigada" exista lá no fundo, eu vou sentir que estou fazendo o certo, o que minhas idéias e minha consciência manda. Não vou deixar o subconsciente do medo me levar pra um caminho que não considere conscientemente o certo. Mesmo que eu acorde no meio de todas as noites da minha vida me sentindo castigada, afinal, o sub-consciente (onde vive nossa "massa de manobra") é mais evidenciado quando dormimos, quando estamos com sono. Mas durante o dia, com o consciente bem aceso, eu sei que estou fazendo a coisa certa.
Dane-se meu sub-consciente.
Isso pode ser considerado uma pregação, mas é uma pregação para mim mesma, afinal, todos de fora pregam religiões, eu mesma, sozinha, preciso pregar a mim a consciência.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Americana e Bad Habit.

Fui no show do Offspring, e mais uma vez cosntatei o quanto é irritante e atrapalha a minha vida as minhas fraquezas mentais e, consequentemente, físicas. Chegamos na fila as 4 horas da tarde, levei um rãfals, uma Trakinas de limão e água. Os portões abriram só as 8h da noite. Quando chegamos na fila, tinham umas 30 pessoas na nossa frente, e quando os portões abriram tinham quantas? Umas 100! Furamos a fila na cara dura, e quando criticavam, costuravam a boca com a minha resposta "furão por furão, agora é a minha vez de furar".

Fiquei com uma mão na grade, esperando um vacilo dos da frente que nunca veio, pelo menos até o momento que fui tirada pela grade porque estava passando mal. Mas antes disso, Tequila Baby entrou no palco, uma hora e meia depois de estarmos em pé na frente do palco, tocou umas 6 musicas fodas, mal dava pra pular, só dava pra cantar junto e suor, emanando uma quantidade incalculável de suor.

No intervalo, começou a tensão. Dois emos malditos de um lado, uma otária nerd do outro que se achava punk porque "bah, meu moicano é feito de ovo, meu", começaram a empurrar sem noção nenhuma, a amassar, a massacrar, e mais 6 mil pessoas atrás que não tinham noção nenhuma de Física de que "dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço".

Passado 15 minutos de intervalo, chamei o tiozinho gente boa que era segurança ali na frente e perguntei se ele podia pedir pra que parassem de empurrar tanto e ele disse que não podia fazer nada sobre isso, então, nem deu 2 minutos e o pânico bateu. Não vinha nenhum ventinho pra acalmar meus nervos, e comecei, na verdade, a morrer de medo de passar mal. Mais uma vez, chamei o tiozinho e perguntei como eu podia sair dali, porque eu estava me sentido mal. Aí me puxaram pela grade e me levaram para a ambulância. Assim que sentei na cadeira do atendimento, escuto a gritaria e os primeiros acordes de "Stuff Is Messed Up". Então, comecei a chorar, a tremer, medindo minha pressão, meus sinais vitais. E a médica "é, dá pra ver que és bem fã da banda", e eu, aos prantos "fã? passei um ano juntando migalhas pra conseguir chegar aqui", e cantarolando "Stuff".

A médica disse pra eu ficar calma, que assim que eu parasse de chorar, ela me liberava pra voltar, mas que eu não devia mais voltar pra grade que eu poderia passar mal denovo. Então, os seguranças levaram o Bruno e eu de volta pra pista (ainda nutri uma pequena esperança de que eles fossem bondosos de me deixar do lado de dentro da grade, mas não).

Chegamos na pista no finzinho da "All I Want", e eu aos prantos ainda. Ficamos no canto direito, a uns vinte metros do palco. O Bruno disse "amor, calma! aproveita o show!". Mas eu estava sentindo pontadas fortes de dor na barriga que não me deixavam pular direito, sentia falta de ar que não me deixava cantar direito e sentia emoção que não me deixava ficar com os olhos secos.

Eu dava cinco pulos e parava pra respirar, berrava umas três frases e parava pra respirar, a cada nova música, novo ataque de choro, gritos, faltas de ar, pulos, dores e choros.

Na hora que eles sairam do palco pra fazer o "charminho do biz" eu nem sabia mais se queria mais, ou se queria que acabasse, de tanta confusão de sensações que eu tinha. Demoraram pra voltar, teve até vaia, mas eles voltaram e tocaram "I Can't Get My Head Around You", " Want You Bad" e "Self Esteem". Eu não sabia se admirava a calma do Greg, a loucura do Noodles ou a força das cordas vocais do Dexter. Ou também, se eu cantava, ou pulava, ou chorava. Foi tenso.

Quatro anos e dezessete dias depois daquela noite em que chorei por não ter grana de ir, finalmente consigo assistir ao show do Offspring, da banda que sustentou minha adolescência e ainda a sustenta (já que nunca consigo sair dessa fase). Extremamente emocionada, nervosa e passando mal, mas vale à pena cada fisgada de dor e de nervosismo pra ver todas aquelas músicas serem tocadas pela banda que escreve letras que casam com todos meus transtornos, minhas idéias, meus conceitos e meus desejos, banda feita de caras que não se preocupam com um esteriótipo punk, que se vestem com roupas normais, que gostam de coisas normais, que não se prendem à conceitos mornos e estáticos. Curtem a vida (gostaria de conseguir curtir), vivem, trabalham, pensam, estudam. Um pouco do que sou e tudo o que quero ser.

Ah, ainda perdi a caixa dos meus óculos, porque a minha mochila se abriu enquanto o Bruno se divertia (quem diria) mais que eu na roda punk.

Obrigada, Bruno, por ter me ajudado a realizar esse sonho, por não me abandonar nem nos momentos em que eu estava chorando "por outros caras", por compreender (ou tentar) tudo o que significava pra mim ir a esse show. Obrigada.

Obrigada aos amigos que torceram por mim, mesmo sendo impossivel pra mim definir com exatidão o quanto era importante pra mim ir a esse show, a esses amigos que me incentivaram e me deram força (mesmo quando eu não acreditava possuir essas forças).

Obrigada ao Offspring, por conseguirem definir com tanta clareza meus pensamentos e transformá-las em canções, e me fazer fã dessa banda de caras normais.



O único problema é que não consigo tirar da cabeça a "Stuff Is Messed Up", só porque não VI ela ser tocada. E até quando eu disse "merda odeio essa música", dois segundos depois eu estava cantarolando, com os braços pra cima "Kristy, are you doing okay?". Nunca pensei que isso fosse possível, uiehauiheuiahueiae...






Foto tirada do celular, pelo Bruno, porque eu não estava em condições decentes de tirar fotos. Mais ou menos aí que ficamos depois do meu fiasco. O que me deixa de cara é que, bem, com tanto empurra-empurra e pressão perto da grade, por que foi só eu quem passou mal? Por que tenho de ser tão fraca, tao medrosa?