terça-feira, 7 de abril de 2015

O aniversário

Quando fiz 26 anos, no dia 20 de fevereiro, entrei na "crise de antes da meia-idade". Eu sei que parte dos meus pensamentos pessimistas podem ser justificados pelo momento que passo na vida, de ter tido minha casa desapropriada sem a devida indenização, estar morando em uma casa minúscula, cheia de problemas, desconfortável e com aluguel caro, driblando as dores de cabeça que a construção de uma casa envolve, ainda mais quando não se tem dinheiro para solucionar alguns problemas, enfim. Tenho motivos de sobra para me deprimir e estar infeliz com a minha situação atual.
Mas o que me incomodou nesse aniversário foi perceber que não cumpri meta nenhuma na minha vida. Nem tive tempo de traçar objetivos, quanto mais alcançá-los.
Com 16 anos, tive de me contentar com um curso de graduação que não era meu sonho, era, sei lá, minha terceira opção, sendo que as duas primeiras nem eram opções, pela falta de recursos. Depois, lutei na metade do curso pra encontrar sentido para o que estava fazendo, para a profissão a qual estava me aperfeiçoando, e acabei encontrando na vontade de mudar o mundo.
Então, 10 meses depois de me formar, passei em um concurso público para lecionar no magistério estadual. Qualquer coisa era melhor do que aguentar chefe imbecil e salário de fome no comércio, apesar de eu até gostar da minha função na empresa que estava trabalhando. Mas foi muito conveniente ser nomeada em novembro de 2012, porque no mês anterior já tinha deixado de tolerar as ignorâncias e caprichos do chefe e havia sido demitida (por quê? Honestidade.).
, fui professorar. E não tive espaço para pensar em outras possibilidades, porque tive a casa desapropriada e encarar com a minha família a responsabilidade de buscar recursos para um novo lar. E o que é melhor do que ter um emprego estável? Nessa situação, o andar da minha vida foi perfeito, não posso reclamar disso. Poderia ter sido pior. Parece que o destino traçou minha vida de forma precisa para comportar as necessidades que minha família enfrentaria nos ultimos anos.
Minha vida, até aqui, foi guiada pelas circunstâncias. Mais de 1/4 do meu tempo na Terra me deixei levar pela vida e as necessidades que ela exigia. Nunca planejei ser alguma coisa, nunca tive tempo para pensar o que queria fazer da vida. Estudei, me formei, fiz concurso, e imergi no mundo da docência.
Minha "crise do 1/4 de idade" é marcada pela falta de planos e falta de perspectivas. A docência é massante: como em qualquer trabalho, temos momentos ruins e momentos bons, convivemos com pessoas boas e pessoas maldosas. Entretanto, exijo qualidade de mim mesma. E aí que entra a parte difícil. Um bom professor precisa se envolver, ler, ler, ler, poder oferecer a mais completa orientação a seus estudantes, pensar em diferentes formas de abordagem do conhecimento, e isso, mais uma vez, exige leitura e estudo. Não que eu não goste de ler, mas essa necessidade do mundo acadêmico de saber "quem disse" e de que alguém precisa ter dito antes de você pra valer à pena a sua opinião, me fez perder a graça de ler. Ler e ter de decorar que disse, decorar as falas, porque se você não tem referências, não vale à pena ser ouvido.
E odeio fazer tudo que sou obrigada. Posso até gostar, mas se sou obrigada, em seguida, desgosto.
E as circunstâncias da vida me obrigaram a estar aqui e viver dessa forma. E, nesse caso, o que odeio?

Depois que me resignei, na formação, pela vontade de mudar o mundo, hoje percebo que só o que quero mudar é a minha vida, quem eu sou, e ser melhor para as pessoas à minha volta.

Falta de objetivos, de planos, de buscas, de riscos. Esses foram meus 26 anos.

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