segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luto por 2016

Talvez, se eu escrever, alguma coisa passe.

Eu estou faz dias para escrever no blog esquecido. Ia falar sobre 2016. Foi horrivel, mas teve algumas coisas boas.
Mas o que aconteceu na virada do dia 31/12 para 01/01/2017 resume como foi 2016.

Ódio.
Um homem matou grande parte da familia da ex-mulher e seu próprio filho. Poderia ser apenas uma tragédia familiar, podíamos "justificar" o acontecido por um transtorno psiquico do assassino. Mas o que acontece é pior. O homem apresentou sua motivação em cartas anteriores, que, individualmente, seria rancor por ter perdido a guarda do filho para a ex-mulher. Em si, já é irracional, mas enfim, sei lá, poderia ser reflexo de uma fragilidade psicológica, que deveria ter sido diagnosticada e tratada.

Mas o problema é que ele justifica suas ações baseado em um ódio generalista sobre as mulheres (mesmo que em algumas palavras ele tente se defender da alcunha de machista). A ex-mulher era uma vadia, todas as que tinham o mesmo sangue que ela eram vadias, a ex-presidente é vadia, todas as mulheres que buscam amparo judicial são vadias. A senhora que apanhou boa parte da vida do marido e deu o nome à lei de proteção às mulheres também é uma vadia.

Ele coloca a culpa de seu descontrole emocional na Justiça, nas mulheres, na esquerda. E é nisso que nossa sociedade, nosso 2016 e, infelizmente, nosso futuro está calcado: em colocar a culpa no outro, em passar a responsabilidade de suas ações ou falta delas a qualquer outra pessoa, entidade, ou até ideologia.

Já antes, nesse 2016, um pai havia assassinado um filho por não ter as mesmas concepções políticas que este. E a culpa era da esquerda, das escolas, dos professores. 

Assassinato nunca é justificável. Até mesmo quando matamos um algoz cruel e desumano, estamos agindo de forma impulsiva, estamos "fora de si", estamos agindo levianamente. E não falo aqui de merecimento, quem merece ou não morrer, ou ser estuprado, ou ser assaltado. Só que qualquer um de nós que atente contra a vida, está sofrendo um sério disturbio, que pode ser emocional, psiquiátrico, social, etc. Estamos fora da nossa consciência de sociedade humana, e isso deve ser considerado assim. EU DECIDI SER ASSIM. Posso ter sofrido as maiores injustiças do mundo, posso morrer injustiçado, mas se eu resolver matar por essa injustiça, A ESCOLHA FOI MINHA, ninguém me obrigou a isso.

Outro lado disso tudo é a intolerância ao outro, também muito presente, e cada vez mais, nesse nosso 2016. Quem pensa diferente de mim é inimigo e deve ser eliminado ou, ao menos, não faz diferença se for eliminado. Se eu sou brasileira e a desgraça aconteceu em Uganda, danem-se: não foi com os meus cupinxas, ou eu não ganharei nenhum status em me solidarizar com isso. Mas isso sempre foi muito comum, como choramos em 2001 com os atentados nos EUA e as mortes no Oriente Médio são só uma notinha no jornal. Mas, em 2016 isso está cada vez mais escancarado, e as pessoas não tem mais a mínima vergonha em assumir que não possuem empatia ou alteridade.

Quem sabe isso seja bom, porque torna mais escancarado quem é quem. Mas decepciona bastante. Assusta bastante. Porque antes se escondia que se bate em mulher pelo simples fato de ser mulher, se achaca pobre pelo simples fato de ser pobre, se discrimina negro pelo simples fato de ser negro, e agora, as pessoas fazem isso em público e parte da platéia aplaude.

Parte da platéia aplaude.

Aplaude o assassino de doze pessoas, injustiçado pela Justiça e pelo feminismo.
Aplaude o pai desequilibrado que mata o filho, porque não sabe viver com as diferenças. Opa, não, a culpa é da doutrinação marxista.
Aplaudem o ódio, e jogam a responsabilidade pra vítima. Mulheres sabem bem o que é isso, mas não quero escrever um texto feminista porque né, posso ser agredida por isso e a culpa ainda vai ser minha.

A estratégia de desvelar as mazelas sociais está virando contra si: ao invés de recriminarmos a violência, o ódio, estamos justificando. Justificando e dizendo quem pode ser violento e quem não pode. Estamos julgando violência com violência. Ao invés das pessoas sentirem vergonha por espancar mulher, mendigo, transsexual, elas se sentem livres pra apoiar em cima de uma suposta índole boa do agressor.

Então, 2016, no público e no privado, se resumiu a isso:
Ódio;
Falta de responsabilidade;
Falta de respeito;
Intolerância.

Não foi legal, não. Eu posso ter tido conquistas, eu posso ter vencido minhas próprias batalhas, posso ter perdido algumas, mas a sociedade em que vivo está doente, e não posso me omitir diante disso. Sei que não posso perder o sono por isso, sei que devo amar, sei que devo esquecer, viver, buscar minhas responsabilidades, mas faço parte desse mundo e preciso viver o luto disso tudo que estamos passando enquanto coletivo.

Um comentário:

Julio Sosa disse...

O ódio saiu do armário, os fascistas que soltaram os monstros para que eles servissem a um propósito político bem definido - derrotar um governo minimamente progressista - não têm a menor ideia de como teder a onda fascista que, infelizmente, só vai piorar.